15 de julho de 2017

"O poder causa dano cerebral" por Thomaz Wood Jr.

Em Rei Lear, William Shakespeare retrata a tragédia do soberano adulado e traído pelas suas herdeiras. Idoso, decide dividir o reino entre as três filhas. Para determinar a partilha, solicita que expressem o amor que sentem por ele. 

Duas delas, Goneril e Regan, o adulam abertamente, afirmando que o amam mais que tudo no mundo. Cordélia, a filha preferida, contraria o rei com sua sinceridade, dizendo que o ama apenas como pai. Lear deserda-a, expulsando-a do reino.

Tem início, então, seu declínio rumo à loucura. O dramaturgo inglês parece, entre muitas outras façanhas, ter antecipado em cinco séculos algumas descobertas da ciência moderna. O poder eventualmente afasta da realidade e provoca delírios. Pode também causar danos ao cérebro.

Jerry Useem, no número de julho-agosto de 2017 da revista The Atlantic, sumariza uma seleta lista de estudos científicos sobre o efeito do poder no comportamento e no cérebro humanos.

Ele declara, logo na abertura do texto: “Se o poder fosse uma droga controlada, deveria vir com uma longa lista de efeitos colaterais conhecidos”. Dacher Keltner, professor de psicologia da Universidade da Califórnia, em Berkeley, após analisar duas décadas de estudos científicos, concluiu que indivíduos sob a influência do poder agem como se tivessem sofrido um trauma no cérebro: tornam-se impulsivos, ignoram riscos e passam a ver o mundo de forma diferente de como seus semelhantes o veem.

O neurocientista Sukhvinder Obhi, da Universidade McMaster, em Ontário, no Canadá, chegou a conclusão similar estudando comparativamente o cérebro de pessoas com poder e sem poder. O cientista observou que o primeiro grupo exibia maior fragilidade em um processo neural denominado “espelhamento”, o qual fundamenta a empatia.

David Owen e Jonathan Davidson publicaram, em 2009, um artigo na revista Brain, no qual examinam presidentes norte-americanos e primeiros-ministros britânicos dos últimos cem anos. O estudo tem o sugestivo título de “Síndrome da Arrogância: Uma Desordem Adquirida de Personalidade?” A patologia é relacionada à condição prolongada e pouco controlada de exercício do poder.

Os sintomas são notáveis: desprezo pelo próximo, perda de contato com a realidade, comportamento imprudente e sinais gritantes de incompetência. Conforme Owen, um neurologista e parlamentar britânico que serviu como secretário do Exterior na década de 1970, o mundo empresarial e as escolas de negócios não se mostram muito interessados em pesquisar a questão da arrogância. Significativo!

Uma exceção talvez seja o trabalho do pesquisador Adam Galinsky, da Columbia Business School. Professor de gestão, realizou há alguns anos, com colaboradores, cinco experimentos para testar a hipótese de que indivíduos com mais poder fundamentam suas ações excessivamente nas próprias perspectivas e demonstram habilidade reduzida para perceber corretamente as visões alheias. A hipótese foi provada e os pesquisadores observaram ainda que o poder reduz a empatia e limita a capacidade de perceber as emoções dos outros.

Haverá cura para a síndrome da arrogância e outros males oriundos do poder? O primeiro passo é reconhecer a patologia, tarefa que não deve ser considerada trivial se considerarmos a condição de fetiche que poder e liderança assumiram em nosso tempo. Suprida essa primeira condição de tomada de consciência, o que pode ser feito, conforme lembra Useem, é parar de se sentir poderoso de tempos em tempos. Para isso, uma boa estratégia é dar espaço a críticos que nos contradigam e exponham nossas idiossincrasias.

Um estudo científico conduzido por Gennaro Bernile, da Singapore Management University, e colaboradores, veiculado em fevereiro no periódico científico The Journal of Finance, demonstra que executivos que passaram por desastres e sentiram suas consequências tendem a ser mais atentos e cautelosos na condução dos negócios. Lembrar sistematicamente de nossas limitações e das forças maiores que interferem em nossa breve passagem pela Terra também pode ajudar a manter o espírito alerta, a mente aberta e o ego sob controle. Liderados e cidadãos em geral agradeceriam.

Publicado originalmente no portal Carta Capital