22 de julho de 2017

O grande acordo por Henrique Araújo

Era maio de 2016, e o governo Temer começava a ser sacudido por um terremoto. 

As gravações do cearense Sergio Machado, ex-presidente da Transpetro, punham no centro do redemoinho político três personagens próximos a Michel Temer: Romero Jucá, então ministro do Planejamento e um dos homens fortes do governo peemedebista; o senador Renan Calheiros e o ex-senador José Sarney, ambos do PMDB.

Nos áudios, ruidosamente divulgados em cadeia nacional de rádio e televisão, Jucá proferia uma frase que se repetiria depois em diversas situações: é preciso “conter a sangria da Lava Jato” e um “grande acordo nacional”.

Feitas as escutas, Machado entregou o material ao MPF, que negociou sua delação, depois homologada pelo Supremo. Pois é essa mesma delação que agora começa a ser questionada. Segundo relatório da PF, as informações prestadas pelo cearense, que hoje goza de benefícios em prisão domiciliar, são inconsistentes.

Mais que isso: de acordo com investigadores, Jucá, Renan e Sarney não obstruíram a Justiça, conforme acusação da Procuradoria-Geral da República, que precisará dizer, num próximo passo, se arquiva o processo ou denuncia os personagens envolvidos.

O saldo de tudo isso é que, passado mais de um ano dos eventos que começaram a minar as bases de sustentação de Temer, a principal peça - e uma das três maiores delações feitas no âmbito da Operação Lava Jato - está agora ameaçada.

A pergunta inevitável é: e se, decorrido algum tempo, a PF adotar o mesmo entendimento em relação às colaborações dos irmãos Wesley e Joesley Batista e inviabilizar as delações? Sem as delações, o poder de fogo, ou pelo menos sem pontos-chave delas, como é o caso da de Machado, o futuro da investigação se estreita e o grande acordo nacional, com participação de todos ou não, fica mais perto de virar realidade.

Publicado originalmente no portal O Povo Online