31 de agosto de 2018

O perigo da campanha mais rápida de todos os tempos por Érico Firmo

Hoje é o 16º dia de propaganda eleitoral de rua e começam os programas no rádio e na televisão. É a campanha presidencial e estadual mais curta de todos os tempos. As regras começaram a valer nas eleições municipais de 2016. Mas, nunca houve escolha de presidente e governadores com tão pouco tempo. O argumento para isso foi de reduzir o custo. O preço pode ser alto.

Desde que a campanha de rua está liberada até o primeiro turno, são 45 dias. Um mês e meio. Até 2014, eram três meses. Serão 35 dias de campanha no rádio e na televisão. Até 2014, eram 45 dias do início. Em 1989, foram 59. O tempo de campanha muda os rumos de uma eleição.

Nos estados e mesmo em plano federal, já houve fenômenos que surgiram feito ondas e desidrataram ao longo da campanha. Cresciam nas pesquisas, o eleitor se encantava. Mas, sob os holofotes, os competidores eram alvo de questionamentos, a avaliação se tornava mais criteriosa. Muitas vezes, minguavam.

O decorrer da campanha fez com que muitas ondas perdessem força. Com a redução à metade, é capaz de não haver tempo de tais fenômenos serem devidamente expostos e avaliados.

Candidato não é e não pode ser escolhido como sabão em pó na prateleira da mercearia. Não é pela aparência da embalagem. Não é no impulso de ver e levar. É preciso reflexão, discussão com os vizinhos, com os amigos. Mesmo a intriga na Internet e nos grupos de WhatsApp. Essa dinâmica social é parte do processo de escolha. Essa rede de influências é componente da formação de opinião.

Tudo isso permanece, mas terá de ser acelerado. Talvez atropelado. O risco é de a onda não ter tempo de se desfazer. A velocidade da campanha pode favorecer os aventureiros e empurrar o Brasil numa aventura.

O que pode mudar

Coisa curiosa é como as pesquisas têm se mantido estáticas. Isso desde o fim do ano passado. Nas sondagens de intenção de voto, sempre há movimentações. Mas elas têm ocorrido dentro da margem de erro.

O máximo de oscilação foi quando Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi preso e ele caiu um pouco. Porém, mesmo preso, já voltou a subir. É intrigante como quase nada mudou.

Em novembro de 2017, no cenário mais parecido com o atual, Lula tinha 36%, Jair Bolsonaro (PSL) tinha 18%, Marina Silva (Rede) tinha 10% e Ciro Gomes (PDT) e Geraldo Alckmin (PSDB) apareciam com 7% cada. Passaram-se nove meses e o cenário do último Datafolha é: Lula 39%, Bolsonaro 19%, Marina 8%, Alckmin 6% e Ciro 5%. A maior diferença é de três pontos percentuais a mais para Lula. Para quem as principais novidades de lá para cá são condenação judicial reafirmada e a prisão. Com iminência de ser excluído da disputa.

Vai haver mudança. Ela necessariamente ocorrerá com a retirada definitiva de Lula da disputa. No último Datafolha, Bolsonaro tem 22%, mesmo percentual de brancos e nulos. Além de outros 6% que não sabem em quem votar. Ocorre que essa mudança terá de se processar em velocidade recorde. Isso é perigoso.

Quem acertar o tom na campanha no rádio e televisão pode se tornar o "viral" desse mês até a eleição. Pode ser o bastante para virar presidente. Estar no segundo turno pelo menos.

Jeito perigoso de se escolher o governante do País.

Publicado originalmente no portal O Povo Online

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