10 de agosto de 2018

A importância de Camilo para a eleição de Ciro


A tentativa de Camilo Santana (PT) de se equilibrar entre os palanques do PT e de Ciro Gomes (PDT) tem peso considerável, e contrário, ao candidato pedetista. O Ceará é absolutamente estratégico para o candidato a presidente que tem raízes e história política no Estado. 

Há cinco meses, em entrevista ao colega Carlos Holanda, aqui do O POVO, Ciro definiu assim sua situação: "É o Ceará, meu lugar, meu Estado, minha comunidade. (...) Não vou enfrentar essa violenta resistência que eu vou atravessar no Brasil sem unir o povo do Ceará".

Em outras palavras, Ciro pode ganhar no Ceará com folga e, mesmo assim, perder a disputa presidencial. Porém, não há a mais remota hipótese de ele sequer chegar ao segundo turno se não tiver votação avassaladora no Ceará.

Sem Lula na disputa, é praticamente certo que Ciro será o mais votado no Estado. A questão é o tamanho dessa votação. Jair Bolsonaro (PSL) é, hoje, o preferido do voto conservador. Geraldo Alckmin (PSDB) testará qual o potencial de Tasso Jereissati e do general Theophilo para levar votos para ele. Quanto à candidatura petista, será crucial a capacidade de Lula transferir votos para Fernando Haddad. É potencial considerável de estrago nos votos de Ciro.

Fortaleza também pode ser problema para o mais velho dos irmãos Ferreira Gomes. Tem muitos apoiadores, sem dúvida. Se Camilo fará campanha meio envergonhado e com restrições, pode-se ter certeza de que Roberto Cláudio será o maior cabo eleitoral do candidato a presidente pelo PDT. Mesmo assim, é um voto menos direcionável e raramente adepto a tendências de massificação.

Simbolismo do voto de quem conhece

Mostra de como é importante o voto caseiro: em 2014, a derrota de Aécio Neves (PSDB) para Dilma Rousseff (PT) no 1º turno em Minas Gerais foi exaustivamente explorada pela candidata no 2º turno - quando o resultado se repetiu e foi determinante para a derrota do tucano.

Nesta semana, pesquisa CNT/MDA mostrou Alckmin atrás de Bolsonaro em São Paulo. É resultado horroroso para quem saiu outro dia do Palácio dos Bandeirantes, está indo para sua segunda disputa presidencial e foi a pessoa que por mais tempo governou o maior estado do País na história da República. Se não ganhar em São Paulo, Alckmin pode desistir de qualquer perspectiva nacional.

Esse é um problema para Fernando Haddad. Tenta a Presidência depois de derrota acachapante, no 1º turno, na tentativa de reeleição pela Prefeitura de São Paulo. Se teve tal desempenho com o eleitor que estava sendo governado por ele, o que se projeta no resto do País?

No caso do Ceará, mais que o peso eleitoral, há o simbolismo para Ciro. Com a candidatura presidencial, os holofotes do Brasil se voltam para o Estado. As virtudes na educação, as dificuldades na saúde, o descalabro na segurança. Nesse sentido, os números de 2017 divulgados ontem pelo Fórum Brasileiro da Segurança Pública são problema extra. O Ceará se sai, como era de se esperar, muito mal. Em que pese a melhora, ainda muito aquém do necessário, nos últimos quatro meses.

Pressão sobre Camilo

O Ceará será a vitrine e o telhado de vidro para Camilo. Ele usará inclusive os aspectos legais para justificar se manter o mais neutro possível na campanha. Porém, a pressão irá crescer. Se Ciro estiver mal, cobrarão dele mais empenho. Se estiver bem e com chances de ir ao 2º turno, a pressão será ainda maior para melhorar o desempenho.

E, para além de Camilo, será importante observar a atuação de seus aliados mais próximos e operadores políticos. Mais que a postura pessoal do governador, vale ver como se comporta o aparato de Estado. A favor de quem ele trabalha.

Publicado originalmente no portal O Povo Online

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