24 de agosto de 2015

"Despolitização da política: desserviço caricatural" por Márcio Teixeira

Em tempos de debates nas redes, as hashtags se sobrepõem às palavras de ordem. Quando a desqualificação do outro assume o lugar dos projetos políticos, as caricaturas se consolidam e prestam um desserviço analítico considerável. No momento em que o marketing gera resultados eleitoreiros mais eficazes que a defesa programática, a rotulação é a regra. A política tem sido um palco de lutas classificatórias acríticas. Atalho que atrai tanto a direita mais tradicional aliada ao PSDB quanto o Governo do PT que concilia incoerentemente políticas populares com o projeto do neoliberalismo. 

De um lado, os setores retrógrados pedem o impeachment - com seus carros adesivados e suas ofensas à presidente -, expressam um desejo anacrônico pelo militarismo ou se vitimizam em tudo o que atinge seus privilégios. Do outro, surgem campanhas como “Impítman é meuzovo”, “Dilmãe” ou a estigmatização em “Aécio Cheira Pó” (que nem de longe é o maior problema do tucano).

Em resposta aos panelaços, a crítica tem sido apontar o elitismo dos atos. Às coreografias nos sinais, tem sido ridicularizar a dança. Às manifestações do “Fora, Dilma”, apenas a caracterização frágil de uma “manifestação de classe média”. É preciso politizar essas questões e problematizá-las a partir de uma leitura conjuntural. Não nos esqueçamos de que as classes mais pobres têm sofrido com os ajustes do Governo e com os cortes drásticos, que, inclusive, ferem direitos sociais históricos.

É preciso informar ao povo que a burguesia reacionária brasileira financia esses movimentos e que o Golpe só interessa às elites que historicamente decidem a política pelas cúpulas e sem a participação popular, como disse Florestan Fernandes. Contudo, isso deve ser feito politicamente.

Utilizar as armas que se combate só favorece aos que nada acrescentam politicamente e sempre se beneficiaram no Brasil.

Orbitar na falsa polarização entre quem hostiliza o Governo e quem o defende cegamente não aponta uma saída real. É hora de construirmos uma via capaz de expressar um projeto popular pautado na luta dos movimentos sociais e dos trabalhadores brasileiros. Esse embate não é nosso e precisamos sair à esquerda dessa cilada, sem permitir que o pior volte à tona com ares de “mudança”. Nem Aécio nem Dilma. Nem Cunha nem Renan, tampouco Bolsonaro, Marina e sua trupe de fundamentalistas. O pacto deve ser com o povo e suas lutas.

Márcio Renato Teixeira Benevides é sociólogo e professor da Universidade Regional do Cariri
Publicado originalmente no O Povo Online