1 de setembro de 2016

"Ante o golpe, aprender com os erros e ir à luta!" por José Carlos Freire

Um dia triste. Chame-se de golpe. Pode ser. Ainda que na história da América Latina essa palavra tenha sido, até agora, vinculada a toda ofensiva feita pelas oligarquias para travar, interromper ou impedir um projeto popular efetivamente transformador das estruturas sociais e econômicas. Chame-se de golpe – é um dia que não dá muita vontade de brigar por palavras, aquela briga vã de que falava o Drummond -, mas não se queira com isso afirmar que os governos do PT foram antioligárquicos. Não o foram em nenhum momento.

Uma coisa é dizer que o processo contra Dilma foi espúrio; outra é querer que isso apague da história o fato de que o PT cavou sua própria sepultura. A decisão tomada lá atrás, de basear a governabilidade no âmbito parlamentar em detrimento do popular, encontrou seu acabamento. 

O rito de ajuste do poder – a mera substituição de atores na mesma peça de manutenção da velha ordem – é algo que nos acompanha desde Deodoro. Tudo depende, de modo preponderante, dos humores e interesses do Congresso, esta instituição cara ao Estado Moderno, mas que no Brasil se transformou em um clube de negociações de nossa velha aristocracia.

Chame-se golpe, tudo bem. Embora haja a alternativa dada pelo jornal Le Monde: “ou é golpe de Estado ou uma farsa”.

Há de se respeitar a história de Dilma Roussef. Ainda mais sua coragem. Saltou aos olhos o recrudescimento do patriarcalismo, do machismo e da misoginia, expresso em todo esse processo. Neste particular ela é vitima. E perdemos todos junto com ela, sobretudo a mulher brasileira. Mas Dilma paga também por suas escolhas políticas e alianças.

Ainda mais triste o fato de que nosso primeiro operário no poder tenha contribuído para a desorganização dos trabalhadores. Deixamos um péssimo registro na luta secular dos trabalhadores do mundo: é possível um partido que os tenha como bandeira não só governar longe deles, mas também aliado aos seus opressores.

No senado, Dilma foi devorada na cova dos leões. Cova que cavou. Leões que alimentou. Injusto para Dilma. Perverso e cruel para o povo, a partir dos resultados que o impeachment trará.

O saldo é nefasto. Serão tempos difíceis.

Pelo menos sabemos algo do que não fazer: não subestimar a força da direita; não acreditar que é possível um pacto de classes no Brasil que favoreça aos trabalhadores; não confiar nosso destino em um “messias”; não jogar nossas fichas unicamente na esfera político-parlamentar; e, sobretudo, não ficar presos ao ciclo vicioso das eleições como único momento da vida política de um povo.

Mas também há pistas do que fazer: formação política através de educação popular; trabalho de base permanente e comunitário; fortalecimento das experiências de coletivos de luta autônomos; aposta na juventude, nas mulheres, negros, Lgbt’s e organizações periféricas como aqueles que hoje ocupam o centro da resistência política. É importante também superar o mito do Lula. Ele não nos salvará. Ou será execrado pela direita ou reciclado para trabalhar de novo para ela. Triste assim. Mas a vida nem sempre é alegre.  Forjar e acreditar em novas lideranças que tenham de fato raízes na luta popular é necessário e urgente.

Em 2018 não aparecerá um portal mágico que nos fará alcançar, num estalo, um outro Brasil. Superemos esta ingenuidade. É o mínimo que uma análise crítica pode nos oferecer neste momento.

Dois anos serão pouco. Será necessário mais tempo. Trabalho de base, num contexto adverso, difícil e certamente repressivo.

Há um compromisso a ser reforçado por todos que descobriram, como Che, que não é por acaso que o coração bate do lado esquerdo do peito: o compromisso com os “condenados da terra”, como nos ensinou Fanon. É esta a bússola: que erremos, mas o façamos em nome de um projeto efetivamente popular. Melhor isso que conquistar o poder e governar para quem faz do Brasil o que ele é há mais de 500 anos.

Reafirme-se: não há de se lamentar a queda do PT. Lamenta-se que tenhamos acreditado por tanto tempo que é possível almoçar com o povo e jantar com quem o oprime.

Que possamos aprender com os erros. E que tenhamos força para ir à luta!

*José Carlos Freire é professor universitário, mestre em filosofia

Publicado originalmente no portal Carta Capital