11 de abril de 2016

“O povo e a crise” por Marcos Coimbra

Ao contrário do que pensa a casa-grande, o povo não precisa ser guiado (Foto: Lúcio Tavora)
Em tempos confusos como os atuais, é sempre bom perguntar o que pensa o povo. Se quisermos mesmo viver em uma democracia, há coisa mais importante? 

Nossa cultura política e trajetória histórica são, no entanto, tão profundamente autoritárias e antipopulares que essa regra não passa de rara exceção. Contam-se nos dedos os momentos nos quais o sistema político expressou os pontos de vista dos cidadãos comuns ou sequer se preocupou em identificá-los.

A República nasceu sob o signo do elitismo, um arranjo no qual o único papel do povo era o de espectador. Como registrou Aristides Lobo no mesmo dia de sua proclamação: “O povo assistiu àquilo bestializado, atônito, surpreso, sem conhecer o que significava”.

Andamos mais de 125 anos e estamos diante de uma situação semelhante. Os donos do poder movimentam-se para encontrar sua “solução boa” para os problemas do Brasil. Preocupam-se exclusivamente em formular aquela que mais satisfaz às suas exigências imediatas. Quanto ao povo, que fique quieto.    

Não há traço mais nefasto na cultura brasileira do que o paternalismo das elites. Trata-se de uma deformidade ideológica cujas raízes estão na escravidão, mas tão forte hoje quanto nos tempos da casa-grande. Essa deformidade as leva a imaginar que têm o encargo de “orientar” o povo. Passamos por um sem-número de manifestações dessa odiosa fantasia de superioridade.

Existe a versão racista e discriminatória, de pura denúncia da incapacidade de um cidadão do povo saber o que lhe convém. Não são somente os brutamontes da direita a subscreverem-na. Quem não se lembra das “análises” do sociólogo Fernando Henrique Cardoso após a última eleição, com seu desprezo pelo voto dos pobres?

Há, porém, uma versão mais sutil: a tutela é “pedagógica” e cheia de “boas intenções”. O povo precisa ser guiado, pois não consegue perceber aquilo de que necessita e deve ser protegido das “más influências”. Para não ser enganado, tem de permanecer sempre sob a guarda de seus mentores. Como se de um lado estivessem adultos esclarecidos e do outro crianças imaturas.

São mitos construídos há tempos. Autoritários e liberais no Império e na República Velha compartilhavam a mesma crença na missão tutelar das elites e na impossibilidade de autogoverno pelo povo. Os generais de 1964 se achavam investidos da incumbência salvadora. Os magistrados e procuradores de agora são seus filhos diretos.

Na crise atual, a vasta maioria da população é simples espectadora, apesar do largo uso retórico que as oposições procuram fazer de seus sentimentos. Desde o ano passado, os partidos oposicionistas e a mídia falam a toda hora daquilo que chamam de “vontade nacional”, embora não passe, na maioria das vezes, de um desejo deles próprios.

Ao comparar pesquisas feitas nos últimos meses, é possível chegar mais perto do que pensa o povo a respeito da crise. São quatro os pontos principais:

 É consenso a grande insatisfação com o governo Dilma Rousseff. A má avaliação subiu rapidamente no início de 2015 e permanece elevada desde então, ainda que apresente pequena recuperação nos últimos meses. Os motivos para desaprová-lo são, no entanto, diferentes, de acordo com as características dos entrevistados. Em pesquisa do Instituto Vox Populi de 2015, perguntou-se aos 68% que avaliavam negativamente o governo o motivo da reprovação. Entre as razões oferecidas, de longe a mais importante, com 36% das respostas, foi: “Dilma está perdida, não sabe o que quer e o governo está uma bagunça”.

Quando se olha como cada segmento socioeconômico se posicionou, percebe-se que são os mais pobres e os de menor escolaridade que mais tendem a concordar com a frase (índices em torno de 40%). Nas camadas de maior renda e educação, a proposição que provoca maior adesão é outra: “Dilma não tem autoridade e os políticos e partidos mandam cada vez mais nela”. Atinge 35% das respostas, enquanto aquela relativa à “bagunça” cai para 20%.

A principal fonte de insatisfação entre os mais pobres parece originar-se na insegurança e na sensação de desamparo causadas pelo comportamento errático do governo no começo do segundo mandato. Entre os ricos, o motivo é mais abstrato. Vale ressaltar que a pauta da mídia, de “erros na economia” e “corrupção”, insistentemente repetida para desgastar o governo, tem adesão mais baixa: tanto entre ricos quanto entre pobres mal chegam juntas a 30% das respostas.

Publicado originalmente no portal Carta Capital