22 de maio de 2017

"O contragolpe do império midiático!" por Túlio Muniz

O constrangimento de jornalistas habituados a compor a defesa incondicional do governo golpista era visível (Foto: reprodução Facebook)
Os escândalos recentes opõem dois dos maiores poderes institucionalizados do Brasil: o Executivo/Palácio do Planalto, e a Rede Globo. O Planalto pode alegar ‘surpresa’, afinal irrigava farta e generosamente a mídia desde o golpe que cassou Dilma Roussef .

A eventual  ‘surpresa’ do Planalto é falsa: os Executivos do PT igualmente privilegiaram a grande mídia, que sempre os perseguiu ou, no mínimo, os ignorou em seus aspectos positivos.

Os únicos governos poupados pela Globo foram os dois mandatos de Fernando Henrique Cardoso.

Por que a Globo a deflagrar o contragolpe?

Fernando Horta levantou uma boa hipótese: “A JBS é a terceira maior anunciante da Globo. Sem o dinheiro da JBS a Globo não paga as contas do mês ”.

Pressionada pela JBS — faturamento anual de quase duas centenas de bilhões de reais — a Globo se dedicou a uma de suas especialidades: derrubar governos.

A hipótese de Horta faz sentido, e aqui lanço outra: não foi em vão que Globo vazou.

Preso há meses, especula-se que uma eventual delação do ex-ministro da Economia e da Casa Civil de Lula e Dilma, Antonio Palocci, envolverá o sistema bancário no circuito de corrupção nacional.

A Globo sofreria outra punhalada em seus cofres. Os bancos compõem um dos maiores setores do bilionário mercado publicitário brasileiro.

Por exemplo, em 2015 os bancos constaram entre os 30 maiores anunciantes da mídia nacional, com relevância na primeira metade da classificação, na seguinte ordem e montantes, na casa dos bilhões de reais:
5º Caixa, R$ 1,9 bilhão;
9º Banco do Brasil, R$ 1 bilhão;
12º Itaú, R$ 964 milhões
14º Bradesco, R$ 866 milhões.

A minha hipótese: com o Temer na berlinda, Palocci se conterá. Quebraria, assim, a sequência de prejuízos que o setor anunciante ligado à alimentação vem sofrendo nos últimos meses.

A JBS hoje é a uma das maiores, talvez mesmo a maior, produtora de proteína animal no mundo, e recentemente teve prejuízos graves com a interdição, ainda que temporária, do mercado internacional por conta de suspeitas de que algumas de suas subsidiárias vendiam carne podre.

A Globo, a mídia em geral, deixaria de lucrar tendo nas cordas do ringue dois de seus grandes setores publicitários.

Entre entregar os anéis e a Presidência, a Globo rifou esta.

Por que a opção de escalar o seu braço impresso (jornal O Globo) para deflagar o contragolpe?

Talvez para amenizar o que poderia ser um ‘balão de ensaio’.

O timing da Globo foi calculado. Optando pelo jornal, publicou na internet, e apenas no início da noite de 17 de maio, o que seriam transcrições de gravações de um empresário com o presidente golpista Michel Temer.

O braço eletrônico, a emissora de TV Globo, veio a reboque, repercutindo a denúncia no seu principal telejornal (o Jornal Nacional), e eram visíveis os constrangimentos de jornalistas habituados a compor a defesa incondicional do governo golpista e de suas medidas autoritárias, contrárias às necessidades econômicas e sociais as mais variadas da maioria da população.

Até então, a defesa de Temer pela Globo era tamanha que o presidente golpista Temer sequer dedicou tempo a uma ‘entrevista exclusiva’, ao contrário do que fez com outras emissoras: Bandeirantes, entrevista exclusiva com José Luiz Datena. SBT, entrevista exclusiva com Ratinho (não se trata aqui de trocadilho, é o nome artístico de Carlos Alberto Massa, apresentador de programa popular de televisão situado naquilo que Muniz Sodré chama, de forma apropriada, de “a comunicação do grotesco”).

Nenhum governo pós-1989 — inclusive os de Lula e Dilma — ousou ao menos propor formalmente uma reforma da legislação que rege a mídia.

Por um lado, se mantém a concentração, nas mãos de 14 famílias por todo o país, dos mais potentes meios de comunicação, sejam eletrônicos, sejam impressos.

Por outro, persiste a anuência governamental, por omissão no enfrentamento legal e por manter financeiramente essa mídia, em vez de estabelecer e fortalecer uma rede pública de comunicação.

A Globo já derrubou João Goulart, elegeu e derrubou Collor, tentou em vão derrubar Lula, derrubou Dilma e agora derruba Temer.

Caso não seja imposta uma reforma da mídia, o próximo governo se sustentará quando tiver de enfrentá-la?

Publicado originalmente no portal Vi o Mundo