24 de maio de 2017

"O ódio golpeou, o ódio cegou, o ódio..." por Rildo Borges Duarte

Antes o Merval Pereira dizia crer na capacidade de Temer ir até o fim e conseguir aprovar as reformas (foto: Reprodução)
Desde o início da noite do fatídico 17 de maio de 2017, quando a notícia saiu no jornal O Globo, seguido de uma chamada emergencial na programação da Rede Globo, muitos foram postos diante daquilo que faziam questão de esquecer. A verdade sobre um governo de bandidos da pior espécie que havia assumido o Brasil, fazendo promessas de "livrar o País da crise e da corrupção".

Estes, que se negavam a encarar o histórico nada favorável de Michel Temer, Aécio Neves et caterva fingiam crer em um "mal menor", cegados pelo ódio visceral a um único partido. Fingiram, desde 2014, não acreditar nas denúncias contra o candidato Aécio Neves, do aeroporto de Cláudio aos desvios na construção da cidade administrativa em Belo Horizonte. Fingiram não acreditar no grampo de Sérgio Machado e Romero Jucá, esmiuçando a sordidez do golpe para "estancar a sangria". Fingiram não acreditar nas delações da Odebrecht, incluídas as denúncias sobre diversos ministros e negociação direta de Temer por mais dinheiro para o Caixa 2. Fingiram acreditar que as "reformas" eram um "bem para o trabalhador".

Esse ódio golpeou. Depois das provas cabais apresentadas por intermédio do dono da JBS, Joesley Batista, com direito a filmagens e grampos onde se inferem práticas de prevaricação, obstrução da justiça e tráfico de influência por parte de Temer, enquanto Aécio usa palavreado típico do gangsterismo, pedindo propina e ainda, jocosamente, ameaça "matar antes que delatem", o ódio voltou. Dessa vez, "esqueceram" de gritar "Fora Temer" ou "Aécio na cadeia" imediatamente. Talvez atônitos diante do espelho que os encarava, preferiram não enxergar o que se delineava ante seus olhos.

A primeira reação foi defender as organizações Globo diante do histórico de comprovadas práticas de jornalismo partidário e defesa dos interesses dos seus patrões. Pipocaram, nas redes sociais, memes e frases feitas como: "Ué? A Globo não era golpista?". O ódio cegou para a conjuntura de ações da Globo. Até aquela a noite anterior ao vazamento das delações da JBS, Merval Pereira dizia crer na capacidade de Temer ir até o fim e conseguir aprovar as reformas. Até a semana antes, Eliane Catanhêde se divertia em piadinhas e risadas com Temer durante uma entrevista. Até alguns meses, Ricardo Noblat ficava encantado com a figura de Temer e dizia que "de perto, era um senhor muito bem afeiçoado, até bonito" e entendia porque Marcela se apaixonara por ele.

Ou seja, por essa lógica odienta, dar um furo jornalístico, oferecido por uma fonte que certamente procuraria outras mídias, livra a Globo de qualquer ingerência na política brasileira. Seria como o doleiro Alberto Youssef não ser corrupto por ter delatado o esquema na Petrobrás (linha, aliás, que parece também ser seguida pela República de Curitiba, que depois da delação deixou Youssef apenas dois anos e meio preso e o liberou, reduzindo sua pena).

Depois vieram ataques ao PT, a Lula, a Dilma e a qualquer um que se portou criticamente diante do processo de impeachment. De novo, memes e frases feitas sobre "não ter bandido de estimação", "sobre os petistas e petralhas", "sobre tudo ser culpa do PT". Claro, quem sempre gritou "Fora Temer" e foi contra o impedimento só pode ser "petralha". Se esquecem que a crítica ao golpe, para muitos, nunca foi apoiar cegamente o PT ou Lula. Era, antes de tudo, preocupação e visão de conjuntura sobre o caos institucional que se instalaria a partir dali, sobretudo porque o histórico de Temer (cujo poder adquirido foi responsabilidade de Lula e do PT ao se aliarem ao que há de mais nojento na política brasileira) apontava para um governo de terra arrasada, de "um grande acordo nacional" pelo fim das investigações, o que foi reforçado pelos áudios de Jucá e Machado.

Por fim, trazer Lula, Dilma e o PT para as denúncias contra Aécio e Temer apenas confirmam que, no fim, o que importa é perseguir um único partido. Dilma foi afastada há um ano e provavelmente terá seus direitos políticos cassados após a condenação no TSE e Lula responde a processos, cujas sentenças devem estar prontas , elaboradas pela "força-tarefa" da Lava-Jato. O que mais querem? Linchamento em praça pública?

 Enfim, o ódio cegou para o voto em Aécio, para os foguetes lançados após o impeachment, para a crença em deixar o Temer trabalhar, para a gravidade do que veio à tona na última quarta-feira 18. O ódio ainda dá crédito ao MBL, que somente ontem descobriu que Temer e Aécio são corruptos, como alguém que mesmo depois de tantos avisos e fatos, só se convenceu da "traição" do parceiro quando as provas vieram a público, desfazendo um relacionamento "tão bonito", apagando as fotos de anos de romance às pressas, antes que alguém visse.

O ódio ainda dá crédito a Bolsonaro, aquele que "se não fosse candidato, gostaria de ser vice do Aécio". Pelo visto, mais gente teve que desfazer um longo relacionamento atropeladamente. O ódio dá crédito a João Doria, alguém que fez fortuna intermediando relações entre empresas e governos e que ontem estava num desses convescotes entre lobistas, em Nova York, ao lado do deputado acusado de ser o operador da propina da JBS para Temer.

O ódio continuará destruindo o Brasil? Alguns caíram em si, mas muitos ainda insistem, como Merval Pereira, ao tentar entender e explicar o que acontecia, em arregalar os olhos em desespero e, cegos diante do espelho, negarem a triste realidade da política brasileira, chegando ao cúmulo de afirmar previamente que "parece, pelos áudios, não ter sido tão grave". Grave mesmo, deve ser "pedalar".

Publicado originalmente no portal Carta Capital