3 de maio de 2017

O que há de novo por Letícia Alves

Por mais de duas décadas, PSDB e PT foram as alternativas reais de poder no Brasil. A pesquisa Datafolha que saiu neste domingo (30/04) mostra o que a crise mudou nesse cenário e também o que não mudou. A primeira e mais óbvia leitura é que, apesar de tudo, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) permanece sem rival como personalidade política mais popular do País. 

As dúvidas são: 1) se estará em condições de ser candidato, devido a toda a complicação policial e jurídica na qual está enrolado, inclusive na condição de réu em vários processos; e 2) se for candidato, seu desempenho sobretudo em um eventual segundo turno. Afinal, sua rejeição disparou e os principais adversários em potencial são pouco conhecidos. Têm, portanto, potencial de crescer ao longo da campanha. Porque, entre os já conhecidos, todos os demais estão estagnados ou em decadência.

Dado dos mais significativos se refere ao PSDB. O desempenho do prefeito paulistano João Doria é digno de nota, sobretudo como sintoma do quanto as demais alternativas tucanas estão em franca e contínua queda. Isso vale para Aécio Neves e Geraldo Alckmin. Resultado das crescentes denúncias relacionadas à operação Lava Jato, com particular ênfase em relação ao mineiro, que desmoralizam qualquer perspectiva de ele ser o contraponto ao PT mergulhado em escândalos. Alckmin, quatro vezes governador do maior estado do País, tornou-se o antigo, situação agravada não só pela Lava Jato como por seus próprios escândalos, como no metrô e na merenda escolar. José Serra nem foi incluído na pesquisa.

Nas últimas décadas, Marina Silva (Rede) foi quem conseguiu de forma mais duradoura se colocar como opção real à polarização PT-PSDB. Ela também caiu, embora siga bastante forte.

E há Jair Bolsonaro (PSC-RJ). Com discurso extremista de direita, é o candidato mais radical e assim consegue adesões. Sua quantidade de intenções de voto é impressionante, apesar do partido nanico e da falta de estrutura. Difícil projetar quão longe poderá chegar com a projeção de uma campanha presidencial, ainda que com pouco tempo. Afinal, seu discurso de ódio, inventário de preconceitos contemporâneos, assustadoramente tem capacidade ímpar de atrair adesões.

Nesse cenário de crise, o que há de mais novo, diferente na política brasileira são Doria e Bolsonaro.

Doria começou a eleição paulistana em 2016 como candidato improvável. Enfrentou acirrada disputa interna, era rejeitado por gente importante do próprio PSDB. Patinou durante grande parte da campanha, até deslanchar na reta final. A experiência recomenda não subestimá-lo nem superestimar o estrago causado pelos tropeços eventuais.

Por exemplo, neste domingo, Doria se envolveu num daqueles episódios que costumam sepultar candidaturas, sobretudo quando ocorrem no meio da campanha. Uma ciclista ofereceu a ele flores em homenagem aos mortos nas marginais paulistas. Irritado, o prefeito atirou as flores no chão.

Simbolicamente, gesto desastroso. Como trato social, é de falta de educação ímpar. Grosseiro, sem tato. Uma lástima. Quando a situação parecia não poder piorar, a assessoria de Doria conseguiu isso. Informou que ele reagiu a gesto “invasivo e desnecessário”.

Ora, invasivo? Oferecer flores ao homem público na saída de solenidade oficial? Convenhamos, já houve manifestações mais agressivas, mais invasivas. E, desnecessário? Homenagear os mortos nas vias na qual o prefeito promoveu aumento de velocidade? Não sei se Doria será candidato, nem se o episódio será lembrado daqui a mais de um ano, quando a campanha estiver em andamento. De todo modo, parece muito aquelas ocasiões nas quais Ciro Gomes (PDT) — neoantagonista de Doria — perdeu eleições devido ao descontrole de temperamento.

Publicado originalmente no portal O Povo Online