7 de maio de 2017

O que sustenta Michel Temer? Por Plínio Bortolotti

Os últimos dias têm sido pouco alvissareiros para o presidente Michel Temer (PMDB). A greve geral do dia 28 de abril provocou tremores no governo, pois a tropa de choque saiu a campo para chamar os grevistas de “vagabundos”, elogio esse enunciado pelo prefeito de São Paulo, João Doria (PSDB). (Ele deve ter se esquecido de que FHC, seu correligionário, nunca mais se recuperou depois de ter usado o mesmo epíteto para classificar aposentados.)

OUTRO que saiu a campo foi o ministro da Justiça, Osmar Serraglio (PMDB), para insultar o movimento como “baderna generalizada”. (Serraglio é aquele ministro que chamava de “grande chefe”o fiscal agropecuário que a operação Carne Fraca, da Polícia Federal, apontou como “líder da organização criminosa”.)

ALGUNS setores da imprensa deram uma ajudinha preferindo ver nos protestos apenas ônibus queimados e a ação dos black blocs, como se fosse proibido olhar além da fogueira - ou para os lados. A ombudsman do jornal Folha de S. Paulo, Paula Cesarino Costa, chegou a escrever que “o bom jornalismo entrou em greve” (30/4/2017), tantos problemas ela viu na cobertura. Pode-se também fazer - não sei se ainda se ensina essa disciplina nas faculdades - jornalismo comparado. Isto é, verificar como a imprensa internacional tratou o assunto em comparação com a imprensa nativa. Não é preciso nem saber inglês, espanhol ou alemão. Basta olhar os portais em português da BBC Brasil (britânico), El País (espanhol), Deutsche Welle (alemão), por exemplo.

AINDA NO terreno da greve, o deputado federal Paulinho da Força (SD-SP), presidente da Força Sindical (a segunda maior central de trabalhadores do país), resolveu ficar valente. Aliado do governo, um dos maiores incentivadores do impeachment da presidente Dilma Rousseff, ele ameaça nova greve, se não houver mudanças nas reformas trabalhista e previdenciária. O deputado quer dividir o prejuízo da crise, que, diz ele, “tem de ser paga por todos, não só pelos trabalhadores”.

OU PAULINHO é ingênuo ou é muito crédulo ou está querendo negociar pequenos avanços para sair bem na fita e, depois, dar a desculpa de que precisa ir ao banheiro quando a conta for posta na mesa. Mais do que mudanças cosméticas, o Governo Temer não pode fazer.

Por quê?

SEGUNDO o Instituto Datafolha, o presidente Michel Temer tem somente 9% de “ótimo e bom”; 28% de “regular” e 61% o consideram “ruim ou péssimo”.

Quanto à reforma da Previdência, 71% dos brasileiros são contra; 64% afirmam que a reforma trabalhista beneficia os patrões e 63% entendem que a terceirização prejudica os trabalhadores.

FRENTE A UM quadro dantesco desses, o que sustenta o Governo Temer? Por óbvio, aqueles interessados na reforma trabalhista, na reforma da Previdência e na terceirização, cujo nome pode ser resumido em uma palavra: “mercado”, ou seja, o sistema financeiro e os grandes empresários. Assim, ou Temer faz a “reforma” por cima de pau ou pedra ou será mandado mais cedo para o chuveiro, sem ninguém para defendê-lo. (Ou alguém espera um levante popular para mantê-lo no cargo?)

E O CARTÃO vermelho está nas mãos dos juízes do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que podem apressar o julgamento das contas da campanha Dilma/Temer e atender o desejo de 85% da população brasileira que pede eleições diretas.

Certo que Temer pode adiar o desfecho com vários recursos, mas o negócio está ficando cada vez mais complicado.

Desemprego
Pressiona também por solução o alto nível de desemprego. São 14 milhões de trabalhadores que vagam pelo País à procura de emprego. Nem a reforma trabalhista nem a terceirização, por si só, têm o poder de reduzir o desemprego.

Economia
O que faz aumentar o número de postos de trabalho é o crescimento da economia. O mais provável é que a possível poupança advinda da terceirização e da reforma trabalhista seja convertida em lucro, e não em mais contratações.

Lucro
Foi o que aconteceu com a “desoneração” de impostos implementada por Dilma Rousseff. Em vez de contratar mais empregados, os empresários preferiram ficar com o lucro.

Publicado originalmente no portal O Povo Online