31 de dezembro de 2017

Feliz ano novo! por Alberto Villas

Quando chegava o final do ano, ele fazia tudo sempre igual. A primeira coisa, era ir até a Livraria Cultura comprar uma agenda nova. Havia uma prateleira inteira só de agendas de papel, das mais sofisticadas, com capa de couro, até as mais populares, com capa de plástico e a imagem da Hello Kitty. Ele sempre acabava comprando uma agenda Pombo, capa imitando couro.

Na mesma livraria, comprava o livro Seu Horóscopo Pessoal, do Joseph Polansky e, no metrô a caminho de casa, já ia lendo as previsões para o ano novo. Os melhores dias para o dinheiro, para o amor, para a carreira, os dias mais tensos, a pedra da sorte.

Depois passava no Pão de Açúcar e comprava um pacotinho de folhas de louro, um quilo de arroz Tio João, uma latinha de ervilhas Bonduelle e um pacote de cebolas.

Na Papel Kraft, comprava papel de presente com motivo vintage, caríssimo, que era para fazer pacotinhos com três folhinhas de louro e dar de presente aos amigos do peito na hora da passagem do ano.

Dava uma passada na Mil Plantas, onde comprava um punhado de palmas brancas, escolhendo sempre as mais vistosas, pra jogar no mar depois de pular sete ondas.

No Fantástico, ouvia aquelas videntes anunciando tudo o que aconteceria no ano que estava chegando. Quem seria o próximo presidente da República, quem teria um sério problema de saúde, quem se casaria, quem ficaria grávida, quem iria morrer. Fidel Castro e o Papa estavam sempre na lista.

Na discoteca, procurava aquele velho disco de vinil – já meio estropiado – com uma canção que dizia assim: Adeus ano velho/Feliz ano novo/Que tudo se realize/No ano que vai nascer/Muito dinheiro no bolso/Saúde pra dar e vender/Para os solteiros, sorte no amor/Nenhuma esperança perdida/Para os casados, nenhuma briga/

Paz e sossego na vida.

Na feira de domingo, escolhia o mais vistoso romã para tirar de dentro dele, alguns carocinhos que seriam chupados, secados e embrulhados num pedaço de papel branco e guardado dentro da carteira de dinheiro.

Abria a carteira, fazia uma limpeza geral, jogando fora alguns recibos do cartão de crédito, uma nota de cinco rasgada que ninguém nunca aceitou, alguns cartões de visita de gente que nunca procurou e o calendário do ano que estava com os dias contados.

Para a mulher, comprava uma calcinha branca para ser usada na noite de 31 de dezembro para 1º de janeiro.

Prego e martelo na mão, dependurava a Folhinha de Mariana na parede da cozinha e já deixava no dia primeiro de janeiro, escrito em vermelho, que trazia no verso um pouco da vida de São Vicente Maria Strambi, o santo do dia.

Na sexta-feira, parava diante da televisão para ver a Retrospectiva, assustado de ver tanta gente famosa que morreu, cantores, cantoras, atores, atrizes, políticos e escritores, que ele sempre achava que já tinham morrido há mais tempo.

Sentava para assistir o show de Roberto Carlos, o rei todo vestido de azul e branco, chamando o Tremendão para cantar a música Amigo e dizendo “são tantas emoções, bicho!”

E na lojinha do bairro, comprava uma caixa com seis unidades de Fogos Caramuru, que guardava sempre longe do alcance das crianças.

Mas este ano não vai ser igual aquele que passou. Na correria da vida, ele acabou esquecendo-se de fazer quase tudo que fazia todo fim de ano. Nem mesmo o romã, que está custando os olhos da cara, ele comprou.

No último dia do ano, ele apenas vai colocar numa das prateleiras de livros, um botton que ganhou da Thallita. E, à meia-noite, vai soltar os fogos que estão guardados desde aquele sete a um. Fogos Caramuru, aqueles que não dão xabú.

Publicado originalmente no portal Carta Capital