24 de dezembro de 2017

O valor da fantasia em tempos de Natal

Todo mês de dezembro, a cada retorno do bom velhinho que, teoricamente, “não se esquece de ninguém”, há quem questione se é saudável continuar permitindo e encorajando que as crianças acreditem em Papai Noel, principalmente por causa do apelo consumista atrelado ao personagem. 

É acertado não querer que as próximas gerações permaneçam reféns do consumo instigado por datas comemorativas como o Natal. Só que, no imaginário infantil, a crença no Noel transcende a pauta comercial. Desperta para a capacidade de criar, brincar e aprender com o universo fantástico.

Luciana Quixadá, psicóloga, doutora em Educação e professora da Universidade Estadual do Ceará (Uece), diz que a fantasia é um elemento fundamental para o desenvolvimento das crianças porque as estimula cognitiva e afetivamente. Sobretudo as mais novas, de até cinco anos de idade, que ainda não conseguem distinguir com clareza o que é real e o que é fictício.

“O período pré-escolar é o auge do jogo simbólico. Às vezes, ela (a criança) entende melhor a questão do bem e do mal ouvindo uma história de bruxa”, compara Adriana Klisys, diretora da consultoria paulista Caleidoscópio Brincadeira e Arte. Especificamente sobre Papai Noel, a psicóloga Luciana Quixadá complementa que a promessa de prêmio por comportamento funciona como reforço positivo da boa conduta. Sem contar outros valores ensinados na história do Papai Noel, como generosidade, união e escuta ativa.

Junto ao receio de alimentar a fantasia do Papai Noel, existe a preocupação de que a mentira contada sobre a existência de um homem com uma longa barba grisalha que distribui presentes para cada criança bem comportada seja injusta e, por isso, prejudicial. Só que, para as psicólogas ouvidas pelo jornal O POVO para esta edição do Ciência&Saúde, a associação do personagem ao consumo, que é real, é que traz o adoecimento mental.

“A gente sabe que nem todas as crianças vão receber o bom velhinho em casa. A cultura do consumo, por si só, é excludente, mas existe a promessa de que todo mundo vai ser atendido. É uma ilusão perversa, porque nem todos vão encontrar condições e oportunidades sociais pra que essa magia se efetive”, compreende Luciana.

Contudo, até mesmo aprender a lidar com a desilusão é algo que pode ser trabalhado com as crianças a partir das histórias fantásticas. “A gente aprende com o sofrimento. Mas, sofrer numa sociedade onde o sofrimento não é permitido, é mais grave”, analisa a psicóloga. E defende: “O problema não é a figura do Papai Noel, mas tudo o que está por trás”.

Publicado originalmente no portal O Povo Online