24 de dezembro de 2017

"O Natal não é essa Coca-Cola toda" por Moriti Neto

Data: 21 de dezembro de 2016, começo oficial do verão brasileiro. 
Fato: não bastasse o calor desértico que nem mesmo três banhos por dia aliviavam, eu havia sido antidemocraticamente eleito a assumir o mandato de destruidor de fantasias. 
Missão: contar a minha filha do meio – 8 anos de idade à época – sobre a não existência do Papai Noel. 

Um ano depois, menina, falemos, de novo, sobre o Natal. Desta vez, porém, não é o velhinho de barbas brancas o centro da história, mas, sim, a megaempresa que o moldou para fazer das festas natalinas um festejo de lucros para poucos: a Coca-Cola.

Você está prestes a completar 10 anos, Bia. E preciso falar do assunto de forma mais ampla. Porque, diferente da outra vez, é fundamental tentar tocar a sua consciência sobre o quanto somos enganados por corporações empresariais que se apropriam de lendas e bons afetos para vender mentiras. Muita gente no planeta sofre com isso.

Tomemos um exemplo e as consequências dele: em 1931, no inverno dos Estados Unidos, a campanha publicitária da Coca foi batizada de "A sede não conhece estação do ano”. É dela que surge o Papai Noel de roupa vermelha e preta, criado pelo artista Haddon Sundblom. A propaganda colou. Em outros tempos e outras culturas, personagens que faziam o papel do Noel eram vistos como “quase santos” e, na maioria das vezes, representavam a generosidade, não o consumismo. Isso se inverte a partir daquele ano e vira um problemão ao longo do tempo.

Por quê? Bem, pense no resultado da soma da data mais comercial do mundo, (o Natal), com um símbolo de crença, praticamente um santo (Papai Noel), e o poder econômico da companhia que mais vende bebidas açucaradas à humanidade? No mínimo, espera-se uma explosão de consumo, não?

Pois a bomba estourou e liberou outras explosões: a de doenças crônicas não transmissíveis (diabetes, hipertensão, males cardíacos, obesidade mórbida, cáries dentárias). Até com o câncer, o consumo excessivo de açúcar já foi associado. Posição oficial do Instituto Nacional de Câncer (Inca), do Brasil, aponta 13 tipos de cânceres que podem ter origem na obesidade. Claro que não é só a Coca que põe açúcar nos produtos, mas ela usa aos montes. E colabora para o desenvolvimento de doenças, também aos montes.

Pior, é que a coisa não para por aí. Vamos viajar e conversar sobre lugares e pessoas que você provavelmente não conhece, mas que têm histórias e credibilidade para falar sobre o “casamento” (ruim para nós) entre a Coca e o Natal?

Na Inglaterra, a Public Health England, agência de saúde pública do país, mostrou, em novembro, que as propagandas da Coca são voltadas a comunidades onde há mais cáries e obesidade, principalmente entre crianças. O chefe do órgão, Duncan Selbie, em entrevista ao jornal The Guardian, pediu que governos locais proibissem a passagem da caravana natalina da megacorporação (aquela, dos enormes caminhões vermelhos, com o Noel a bordo) pelas cidades do país.

"Nós estamos vendo um número crescente de protestos contra o caminhão, tanto do público como de parlamentares, profissionais de saúde e dentistas. A motivação por trás disso (da carreata) não é levar a alegria do Natal, mas é uma tática de marketing que não é boa para a saúde das crianças", diz Mary Fewtrell, professora do Royal College de Pediatria e Saúde Infantil, também da Inglaterra.

Uma nota do porta-voz oficial da corporação naquela região do mundo defende o uso dos caminhões: "O passeio de caminhão de Natal da Coca-Cola é um evento anual único que oferece às pessoas uma escolha de amostras de 150 ml de Coca-Cola Clássica, Coca-Cola Zero Açúcar ou Coca Diet. Duas das três opções não são bebidas açucaradas".

Só que as amostras grátis de 150 ml são entregues às crianças. E o que a posição da empresa não revela é a existência de diversas pesquisas evidenciando que as Cocas sem açúcar (mas cheias de adoçantes artificiais) também podem fazer muito mal, inclusive aumentando os riscos de Acidente Vascular Cerebral (AVC) e demência.

Estamos na Europa, ainda; Espanha. Trabalhadores demitidos pela Coca realizaram “manifestações natalinas” na capital do país, Madri, no último dia 16 de dezembro. O movimento “Coca-Cola em Luta” reúne 821 trabalhadores dispensados em 2014, mas readmitidos após decisão judicial. Parte deles, porém, foi colocada em um centro logístico e não na linha de produção, área em que trabalhavam antes. Funcionários foram colocados para selecionar garrafas manualmente, uma atividade totalmente inútil atualmente e que os coloca em condições emocionais de Inferioridade. Quem já passou por assédio moral ou bullying, sabe do que estou falando.

Eles sofrem, mas não perdem a oportunidade da ironia. Um vídeo da campanha dos trabalhadores debocha do clima natalino da transnacional e conta uma versão contundente sobre o “Natal da Coca”: "O mundo inteiro há de saber a triste realidade. Empregados sem trabalhar e bullying laboral (no trabalho). Decisões judiciais sem cumprir. Basta de impunidade. É o momento de dizer: não aguentamos mais. Não tome Coca-Cola!".

Mais pertinho de nós agora, filha. América Latina. México. Em 2015 e 2016, a Coca havia pendurado a marca da empresa na árvore natalina na praça central de Zócalo, na capital do país, a Cidade do México. Vieram protestos e cartas endereçados aos poderes Executivo e Legislativo do município. A transnacional não aguentou a pressão. Imagens com o logotipo da corporação, do Papai Noel bebendo o refrigerante e de ursos polares das campanhas publicitárias foram retiradas.

Ah, sim, não posso deixar de lhe contar: o México tem o maior consumo de Coca por pessoa no planeta. Também por isso, é o país que carrega um “troféu” pesado e desagradável: em 2013, foi o campeão mundial em obesidade. Hoje, segue entre os primeiros lugares. Setenta por cento dos adultos e 30% das crianças têm sobrepeso ou são obesos. Diabetes (só esse mal mata 80 mil pessoas por ano no país) e outras doenças crônicas se espalham. Recentemente, foi criado um imposto especial sobre bebidas açucaradas para tentar conter essa epidemia.

Voltamos ao Brasil. Lembra-se de uma grande árvore de Natal que você visitou comigo há alguns anos, no Parque do Ibirapuera, em São Paulo? Este ano, ela cresceu. Foi anunciada como a maior dos últimos tempos, com 40 metros de altura. Até aqui, tudo parece legal, certo? Errado.  A questão é que o projeto resulta de uma parceria entre a prefeitura do município, comandada por um cara chamado João Dória Jr., e a Coca-Cola. Sim, ela colocou penduricalhos na árvore que você adorou. E não foi discreta. Instalou, no topo, uma garrafa simbolizando a marca, dividindo o espaço com uma estrela natalina de oito metros.

A Coca “investiu” R$ 1,5 milhão na árvore porque os executivos da empresa sabiam que ganhariam muito mais do que gastaram graças à tamanha visibilidade dada à marca. Só que era contra a lei, filha. Algo contrário às normas da própria prefeitura. Em 4 de dezembro passado, os badulaques foram retirados, a contragosto da transnacional e do prefeito.

Como a gente pode perceber, o refrigerante mais vendido no mundo é mais combatido hoje - as vendas, inclusive, estão caindo planetariamente. Contudo, reconheçamos que a Coca-Cola é esperta e tentará te conquistar (e a muitas outras crianças, que formam o público preferencial da empresa) dizendo que também fabrica coisas saudáveis, como chás e sucos, o que dá outra história a ser contada, num outro dia.

Saiba que é linda a sua convicção na imaginação e que apenas contei a verdade sobre o velhinho no ano passado porque você fazia questionamentos inescapáveis. Lembre-se, sempre, que seus pensamentos lhe pertencem. Nem mesmo familiares ou outros adultos podem tirar o seu direito de pensar livremente. Muito menos empresas que querem nos empurrar produtos e datas comerciais consumistas com discursos mentirosos. Converse com a sua irmã mais velha, que sabe bem os males que o excesso de "alimentos porcarias” pode causar. Quanto ao caçula, deixe-o crer no Noel. Porém, aconselhe-o a não entrar em “ondas” de refrigerantes, principalmente na maior delas.

Publicado originalmente no portal Carta Capital