29 de outubro de 2017

"Congresso e Governo. A nova vitória da velha política" por Letícia Alves

Michel Temer e Rodrigo Maia em reunião no Palácio do jaburu (Foto: Givaldo Barbosa)
A busca por uma nova política foi o grito que prevaleceu nos últimos anos no País em meio à crise. Desde uma primavera de manifestações em 2013, as ruas pediram melhor investimento do dinheiro público, punição dos corruptos e renovação dos representantes políticos. Em paralelo ao desejo de mudança, predominou o contrário: perdeu o povo, venceu a velha política.

A análise é de especialistas e políticos ouvidos pela reportagem, que apostam que a saída passa de novo pelas ruas, mas também pelas urnas e caneta e papel. “No Brasil, persiste um estilo de fazer política próprio de uma sociedade oligárquica, incompatível com os índices de modernidade observado em outros esferas”, resume o cientista político Filomeno Moraes, professor da Unifor.

Esse “estilo de fazer política” pôde ser observado nas duas vitórias do presidente Michel Temer (PMDB) na Câmara dos Deputados, rejeitando abertura da denúncia contra ele. Cálculo do jornal O Estado de S. Paulo estima que o arquivamento dos dois processos pode ter custado R$ 32,1 bilhões, com a liberação de emendas, concessões e outras medidas do governo negociadas com os deputados.

“Quem hoje aponta o dedo, estava fazendo o mesmo um ano atrás, com a diferença incontestável que a personalidade do Temer é negociadora, essa velha política ele sabe fazer bem. Mas isso a Dilma também fazia, o Lula fazia, o prefeito da sua cidade, da minha cidade faz… É a velha política que prevalece”, analisa o professor de sociologia e política da Universidade Presbiteriana Mackenzie, Rodrigo Prando.

Uma característica dessa política é a desarmonia entre as práticas dos representantes e os desejos da população. Isso explica porque, em meio à Operação Lava Jato e às críticas do povo à impunidade, a denúncia contra Temer não foi aceita e o senador Aécio Neves (PSDB-MG), afastado do seu mandato pelo Supremo Tribunal Federal (STF) no fim do mês passado, teve medidas cautelares revertidas pelo Senado.

Outro descompasso foi o resultado da reforma política — apontada inicialmente como essencial para o fim da crise —, que não trouxe muitas mudanças. O fim do financiamento privado deu lugar a um fundo público bilionário para financiar as eleições e o fim das coligações ficou só para 2020, com risco de ser revogado.

Para o professor Filomeno Moraes, a ideia de que através da reforma poderia se “alcançar um patamar mais civilizado de fazer política” é ilusória. Por outro lado, algumas propostas, como “o tal distritão”, deveriam ser descartadas porque “produziriam muito mais retrocesso”.

Até as manifestações, apontam os analistas, teriam sido “sequestradas” pela velha política: nasceram em 2013, sem lideranças bem definidas, se denominando “suprapartidários”, depois foram frequentadas por partidos nos movimentos contra Dilma e Temer. Os discursos logo migraram para ataques a partidos ou figuras públicas e ganharam contornos de repúdio à própria política.

Para o professor de história da Uece, Agileu Gadelha, a saída não está na negação da política, mas no retorno a ela. “É hora de levantar as lideranças pensantes”, defende. A maior aposta ainda é na educação política e nas eleições, que, embora distantes, são fundamentais para a democracia. A unanimidade, porém, está nas eleições. “Só há possibilidade da mudança da política se o eleitorado decidir votar com a consciência de escolher alguém que seja preparado, tenha compromisso ético e não tenha uma vida pregressa cheia de crimes ou suspeitas”, resume Rodrigo.

Publicado originalmente no portal O Povo Online