7 de junho de 2017

"A farsa de um julgamento" por Henrique Araújo

Plenário do TSE por ocasião do julgamento da chapa Dilma/Temer (Foto: Divulgação)
Drummond tem um poema que se encaixa à perfeição ao momento político atual. Ironicamente, chama-se “Quadrilha” e fala sobre uma corrente de amor não correspondido. Mal iniciado ontem, o julgamento da chapa Dilma/Temer no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) tem algo de farsesco, desde a razão alegada pelo senador afastado Aécio Neves (“pra encher o saco do PT”), até as queixas apresentadas pela chapa derrotada (abuso de poder econômico) e os argumentos de Dilma e Temer para evitar a cassação (não sabíamos de nada).


Essa farsa está tanto ligada ao papel cômico desempenhado pelo PSDB, cujo advogado, José Eduardo Alckmin, faz agora um malabarismo para pedir a cassação de Dilma, mas preservar Michel Temer; quanto nas querelas e mumunhas da defesa da petista, que acabam se aproximando das de Temer na tentativa de impedir a punição de inelegibilidade. Por caminhos tortuosos, a ex e o atual, que um dia estiveram juntos mas depois se desentenderam, parecem reatar diante do juiz. A política brasileira é novela mexicana.

Outro contorcionismo está na origem do próprio processo e se relaciona à principal acusação: abuso de poder político e econômico. Todos sabemos, a partir do que têm dito os delatores e dos processos abertos no âmbito da Lava Jato, que a chapa derrotada em 2014 teria recorrido aos mesmos expedientes ilícitos para financiar sua campanha. Daí o sorriso amarelo do advogado do PSDB durante a sessão que abriu o julgamento depois de paralisado em abril. De fato, é difícil explicar por que Aécio se julgou prejudicado em 2014, sobretudo depois dos grampos de suas conversas com Rodrigo Loures para barrar a Operação Lava Jato.

Como no poema, Temer amava Dilma, que amava Lula, que amava Temer, que amava Eduardo Cunha, que não amava ninguém - sequer Aécio. Dilma caiu da cadeira e foi para o Rio Grande do Sul. Lula está perto de Curitiba. Cunha está preso. Aécio não pode pisar em Minas. E Temer confia todas as fichas em Gilmar Mendes, que ainda não tinha entrado na história.

Michel Temer está sozinho. Aos poucos, foram sendo abatidos seus principais aliados, de Romero Jucá a Eduardo Cunha, parceiros no processo de impeachment. Há duas semanas foi Rodrigo Loures, um auxiliar e pau para toda obra do presidente. Ontem, foi a vez de Henrique Eduardo Alves (PMDB), ex-ministro do Turismo preso durante mais uma fase da Operação Lava Jato. Assim como Dilma Rousseff (PT) nos estertores do seu governo, o peemedebista perdeu a blindagem que tinha quando assumiu no lugar da petista. É um fim melancólico.
Veio da Procuradoria-Geral da República e do Supremo Tribunal Federal a artilharia que reduziu essa muralha defensiva do peemedebista a escombros. Juntem-se ao fogo cerrado as ofensivas contra o Planalto no STF e no TSE, e o que se tem é um mandatário impopular (cerca de 3% de aprovação, segundo pesquisa mais recente) vivendo seus derradeiros momentos, mas insistindo numa estratégia já testada por Dilma. Nas semanas que antecederam a sua destituição, a então presidente converteu o palácio em um bunker, de onde se recusou a enxergar a ruína em redor. Até que se viu sozinha, traída por ministros que lhe haviam prometido ajuda, como Gilberto Kassab, que, ao lado de Aloísio Mercadante, levou adiante aquela malfadada ideia que custaria o mandato da petista: e se a gente reduzir o espaço do PMDB no governo? Deu no que deu.

Hoje, Temer vale-se de maioria congressual para permanecer na cadeira de chefe do Executivo. É pouco, mas, dentro da lógica de resistência palaciana, faz todo sentido. Ainda que seja denunciado pela PGR, o presidente sabe que tem maioria para barrar a abertura de ação penal no Supremo. Impedindo-a, evita também tornar-se réu, o que talvez lhe garanta permanência no cargo até 31 de dezembro de 2018. É pouco, mas um governante tão mal avaliado e sob risco permanente de queda já não tem tantas expectativas senão sobreviver.


Publicado originalmente no portal O Povo Online