13 de junho de 2017

"PSDB, Temer e os fatos novos" por Henrique Araújo

Aécio Neves, Geraldo e João Dória em visita a FHC (Foto: Eduardo Enomoto)
Três fatores explicam a permanência do PSDB no governo Temer, decidida ontem em reunião da executiva nacional da legenda após três adiamentos: Geraldo Alckmin, governador de São Paulo, João Doria, prefeito da capital paulista, e Aécio Neves, senador afastado por determinação do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Edson Fachin.

Por motivos diferentes, esses três atores, cujos interesses estão em jogo no meio da crise que se instalou no Planalto desde a delação da JBS e levou de roldão o tucanato, têm razões para querer manter o apoio a Michel Temer num momento em que o peemedebista é arrastado para o olho do furacão. Alckmin, por pretender disputar a Presidência em 2018. Para o governador, é melhor enfrentar um adversário cambaleante, seja ele Rodrigo Maia ou o próprio Temer, a um fortalecido, como poderia ser caso as eleições indiretas fossem realizadas com o afastamento do presidente. Doria, por sua vez, vê no PMDB um aliado para seus projetos, que podem variar conforme os ventos da Operação Lava Jato. E, finalmente, Aécio, que luta para não perder o foro e, com isso, ficar mais perto da prisão.

É nessa guerra de interesses mais imediatos que o PSDB, instado por metade de sua bancada parlamentar e parte da opinião pública a tomar uma resolução, preferiu fazer como a maioria dos ministros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) na última sexta-feira: ignorar o rosário de fatos novos produzidos em ritmo vertiginoso contra o governo e permanecer ao lado de um presidente que deixou de lado sua agenda reformista para tentar salvar a própria cabeça. É um gesto arriscado e que flerta com o abismo eleitoral.

Alckmin, governador de São Paulo, um dos articuladores do
Alckmin, governador de São Paulo, um dos articuladores do "fica"
SORTE E CINISMO

A política também é feita de sorte. Pela terceira vez no curso de pouco mais de um ano de mandato, o presidente Michel Temer, caso se mantenha no poder até setembro, terá às mãos a terceira oportunidade para escolher o seu julgador. Em janeiro deste ano, depois da morte do ministro do Supremo Teori Zavascki, Temer indicou para seu substituto na Corte onde correm processos da Operação Lava Jato o então ministro da Justiça Alexandre de Moraes, apontado por Rodrigo Janot como parte de uma ofensiva para barrar apurações conduzidas pelo Ministério Público Federal e a Polícia Federal.
Já em abril, com a saída dos ministros Henrique Neves e Luciana Lóssio do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o peemedebista escolheu dois nomes do seu agrado para as vagas. Entraram, então, Admar Gonzaga e Tarcísio Vieira, que acabariam por votar pela absolvição do presidente em julgamento realizado na última sexta-feira, num placar apertado de 4 a 3 - caso pelo menos um deles tivesse votado contra, o diploma de Temer teria sido cassado.

Dentro de três meses, nova chance cai no colo de Temer, agora com o fim do mandato do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, com quem o presidente tem travado uma batalha encarniçada. Por tradição, o nome que ocupa a presidência do MPF é escolhido numa lista tríplice elaborada pela Associação Nacional dos Procuradores da República (ANPR). Nada, porém, obriga o mandatário da República a optar pelo primeiro da lista, tampouco limitar-se às alternativas oferecidas pela entidade. Fugir dela seria imoral, mas não ilegal.

Essa é uma decisão que pode definir o futuro do peemedebista. Do mesmo modo como, bem escolhidos, os dois novatos do TSE deram uma contribuição valorosa para a permanência de Temer na cadeira de presidente. Compete ao chefe da PGR instaurar processos, apurar malfeitos de autoridade com prerrogativa de foro e, quando não se verificam indícios suficientes de crimes, engavetar os inquéritos. Nesse último caso, o País conheceu a notável trajetória de Geraldo Brindeiro, que se popularizou como engavetador-geral da República quando esteve à frente da PGR durante o governo de Fernando Henrique Cardoso.

Publicado originalmente no portal O Povo Online