21 de janeiro de 2018

A seca impulsionou o estudo de alternativas de uso da água do mar

A Usina deverá ser construída na área do Porto do Mucuripe em Fortaleza (Foto: Evilázio Bezerra)
A discussão sobre o uso ou não da água do mar não é nova e ganha força nos períodos mais críticos de seca, como a de agora. Consultor em recursos hídricos, Hypérides Macêdo diz que, em 1997, quando era secretário de Recursos Hídricos na gestão do então governador Tasso Jereissati, chegou a ir à região da Costa Dourada, entre Barcelona e o sul da Espanha, para conhecer plantas de dessalinização.


Trouxe empresários para analisar a viabilidade de se construir usinas em Aracati, Pecém e Fortaleza. Mas o custo de US$ 1 por m³ de água bruta frente aos R$ 0,20 por m³ da água que se obtinha dos açudes, valores vigentes naquele período, mostravam que a dessalinização não era solução mais adequada. Tão pouco havia empresários dispostos a investir. “Mal havia recursos para o Cinturão das Águas”, explica.

Melhor seria apostar na briga pela transposição do rio São Francisco. O projeto, do qual também participou, em 2004, previa a entrada das águas do São Francisco pelo rio Salgado, no Ceará, chegando ao rio Jaguaribe. “Naquela época, não havia previsão de seis anos de seca, que é histórica, é excepcional. A traição maior foi da natureza, que atrapalhou o planejamento”, afirma.

A demora e os problemas de gestão pública na condução das obras da transposição, na avaliação de Hypérides, agravaram o cenário e levaram o Estado à situação que se tem hoje. O doutor em Gerenciamento de Recursos Hídricos pela Colorado State University (Estados Unidos) e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Nilson Campos, defende que a construção do Cinturão das Águas e a transposição do rio São Francisco foi – e ainda é – suficiente para atender à demanda do Estado. Daqui a alguns anos, não mais será.

“Se a população continuar aumentando e as cidades crescendo, é inevitável considerar outras possibilidades. O modelo clássico já está exaurido”, avalia.

Para ele, é preciso que o Estado olhe com afinco para a questão do reúso. O que a literatura mostra é que os custos da dessalinização são muito superiores ao de outros processos. Na Califórnia, área de estudo de Nilson, o custo de dessalinização varia de US$ 2,40 a US$ 3,40 por metro cúbico de água.

Ele ressalva que este preço varia segundo o porte da usina, tecnologia empregada e condições locais. Usinas menores têm custo maior. Porém, mesmo as mais baratas costumam ter um valor maior que a do reúso. “Mas o importante é fazer estas contas, tirar do campo das ideias e ver quanto custa para tomar a melhor decisão”.

O professor do Departamento de Geografia da UFC, Jeovah Meirelles, diz que, para além do custo em si, o reúso tem um ganho amplo. “É melhor para o meio ambiente, para a saúde das pessoas, para todos”. observa.

Quando concluído o estudo da Cagece, será lançado outro edital para escolher o parceiro privado que vai construir e operar o empreendimento de dessalinização. A ideia inicial é de que a usina seja uma opção para os períodos de maior estiagem, como são as termelétricas, que tem custo maior, mas só são acionadas quando se precisa de reforço no abastecimento.

Quando a planta não operar, continua havendo gasto para manter o empreendimento, mas este custo cai para aproximadamente um terço do valor cheio.

Silvano Porto diz que também foi considerada a possibilidade de uma usina de reúso, mas estudos internos realizados nos últimos dois anos concluíram que a dessalinização da água do mar seria a saída mais adequada para diversificar a matriz hídrica do Estado para o consumo humano.

“Em função de um conjunto de critérios que vão desde a aceitação pública – ainda há certa rejeição da água de reuso para consumo humano-, a viabilidade técnica que já existe no mundo, a proximidade litorânea que a Região Metropolitana tem, mas principalmente pela sua disponibilidade. É um recurso praticamente infindável, que está menos sujeito às variações climáticas, que passamos hoje”.

A diversificação da matriz hídrica também virá pelo reúso, assegura. Por meio de uma planta menor, com capacidade instalada de 115 litros por segundo, para atender as indústrias do Complexo Industrial do Pecém (CIPP).

Atualmente o projeto, que está sendo tocado também por meio de parcerias público-privadas, está em fase de ajuste de preços da tarifa. Mas estima-se que este valor seja um pouco menor que o de uma usina de dessalinização da água do mar. “Vai atender cerca de 10% da capacidade das empresas, mas de qualquer forma, é uma alternativa para desafogar o Castanhão”.

Com informações portal O Povo Online