24 de janeiro de 2018

"Não aceito o complexo de vira-lata que tomou esse País" diz Lula em Porto Alegre

Lula discursou em ato no Centro de Porto Alegre (Foto: Ricardo Stuckert)
Em discurso em Porto Alegre ontem (23/01), véspera de seu julgamento em segunda instância na capital gaúcha, o ex-presidente Lula preferiu deixar em segundo plano a possibilidade de ter sua condenação confirmada pelo TRF-4 e atacou a elite brasileira, a quem chamou de "perversa", e o desmonte da soberania nacional.

"Não posso me conformar com o complexo de vira-lata que tomou conta do nosso País", afirmou. "É uma elite que quer falar grosso com a Bolivia e manso com os EUA. Foi a última elite a acabar com a escravidão no nosso continente."

O ex-presidente chamou a grande imprensa brasileira de "mentirosa" e afirmou que a população está anestesiada. "Por que eles estão destruindo nosso patrimônio e não estamos reagindo com a força que deveríamos? eles deram uma anestesia, eles inventaram essa 'doença' chamada PT. Ela causava um mal que era a ascensão das pessoas mais pobres", ironizou o petista.

Lula afirmou que a "doença" está sendo substituída por outra pior. "É a doença de subordinar os interesses dessa pátria de 200 milhões de habitantes." O ex-presidente descreveu uma reunião que teve em 2002 com George W. Bush, então presidente dos EUA.

"Ele disse que tínhamos de acabar com o Saddam Hussein, com o terrorismo. Eu respondi: 'meu país fica a 14 mil quilômetros do Iraque. Não conheço o Saddam. Eu não quero fazer guerra contra o Iraque, mas para acabar com a fome no meu País."

Lula não fez críticas duras a Sérgio Moro, mas provocou o magistrado. "Eu sei que não cometi crime, mas ele (Moro) sabe que está mentindo", disse. "Ele não terá coragem de falar que não há um magistrado mais honesto do que ele no País."

O petista também ironizou o chamado "mercado". "Quando falam que o mercado não quer que eu volte, eu respondo que não preciso dele, mas sim de empresas produtivas, de uma agricultura produtiva." 

Em certa passagem o petista ainda provocou Luciano Huck, cotado como candidato a presidente. Ao cumprimentar os manifestantes presentes, Lula brincou que "quem está acostumado a trabalhar no Caldeirão (uma referência ao Caldeirão do Huck), tem de cumprimentar quem está na frente, atrás, na esquerda ou na direita".

Por fim, Lula pediu unidade à esquerda. "Acredito que em algum momento a esquerda vai se unir. Não em torno de um candidato, mas de um projeto."

Antes da fala do ex-presidente, Dilma Rousseff defendeu que o Brasil precisa de Lula. "Esse pais precisa de um homem. Pode ter precisado de uma mulher no passado, mas agora precisa de seu ex-presidente, para nos encontrarmos com nós mesmos, para que esse Pais ferido, que está sendo estraçalhado por políticas conservadoras, tenha uma caminho de esperança."

Dilma classificou uma possível condenação em segunda instância como o terceiro capítulo do golpe, precedido por seu impeachment e pelo desmonte das políticas sociais dos governos petistas. 

"Nós temos a esperança de que o TRF4 reconheça que esse país precisa de uma Justiça não política." Dilma prometeu luta em todas as instâncias do Judiciário. e garantiu que Lula é a única alternativa do partido para 2018. "Sempre me perguntam sobre um plano B. Sabe por que não? Quem acredita na inocência de uma pessoa, seria um covarde em substituí-la."

Pré-candidata à presidência pelo PCdoB, Manuela D'Ávila comemorou a unidade do campo progressista em defesa do direito de Lula se candidatar. "São As bandeiras vermelhas da nossa unidade, a unidade daqueles que compreendem que eleição sem Lula é golpe. Nós temos clareza disso no PCdoB. Por isso, marchamos unidos. Lugar de política é na eleição, e não no poder Judiciário", afirmou.

Cogitado como possível candidato pelo PSOL, Guilherme Boulos, líder do MTST, afirmou que Sérgio Moro é um "fantoche". "Esse argumento falacioso de combater a corrupção, desde os tempos da UDN, é combater o avanço do nosso povo. Essa turma tem uma tara por apartamento, fizeram o mesmo com o Juscelino Kubitschek", afirmou, antes de criticar a elite do País. "Essa Casa Grande é que vai estar sendo julgada, não pelos juizes do TRF, mas pelo povo brasileiro. Podemos ter qualquer diferença. Hoje e amanhã, é unidade democrática."

Com informações portal Carta Capital