28 de janeiro de 2018

Elite brasileira e (des)construção nacional por Cláudio Ferreira Lima

A elite é a classe dominante, dos donos do poder, que comanda todo o processo. Não ocupa, necessariamente, de forma direta, o topo do aparelho de Estado, ou seja, o governo, pois este, normalmente, é delegado como concessão às classes subalternas, que elegem seus representantes, em geral egressos da classe média. 

Nesses termos, o chefe do Executivo ocupará a função até quando não desagradar os donos do poder. Se o fizer, haverá um meio de alijá-lo.

No Brasil, a elite associa-se a interesses externos, e o País lê na cartilha da potência hegemônica. Portanto, conforme a natureza das articulações do governo nesse complexo xadrez político, o País pode ser levado à condição de periférico, de economia meramente reflexa, ou de nação desenvolvida, com assento nos centros de decisão internacionais.

Qual tem sido o comportamento da elite brasileira? Um balanço do seu papel nos destinos do País não é nada animador. Apenas em raros momentos da vida nacional uma fração dela acreditou na nação.

Assim, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek articularam um pacto de poder com parcela da elite e de interesses externos e cercaram-se de quadros competentes e respeitados. Então, o Brasil ocupou seu território, industrializou-se, e o brasileiro ganhou autoestima. Mas ambos pagaram caro por isso. A Jango, enquanto o ambiente de exacerbação da Guerra Fria lhe era desfavorável, faltou a habilidade dos seus dois antecessores, e ele também pagou caro.

Lula procurou seguir o caminho dos construtores da nação, mas não conseguiu avançar. As circunstâncias são bem outras. É que se firma o insubmisso e insaciável capital financeiro. A classe média imita a elite no desinteresse pela nação.

Inteligências fundamentais, como economistas e cientistas sociais, preparados em universidades estadunidenses, assumem o credo da potência hegemônica. Não bastasse isso, a fragmentação partidária impossibilita compor governo com quadros sérios e competentes, devotados à nação.

Dessa forma, desde 31.8.2016, passamos a viver situação inusitada. Feito o impeachment de Dilma, assumiu Temer, o vice, e, embora pese sobre ele e seu governo contundentes acusações com provas provadas, mancomunado com o Congresso, tem sido fiel e de grande utilidade à elite, seus aliados externos e à potência dominante, e por isso é mantido.

Em resumo, as classes subalternas, que não têm o poder, perderam o governo, ao tempo em que a elite confirma, mais uma vez, o seu histórico alheamento ao projeto de nação. Como já comentei em artigo anterior, o gigante segue à deriva.

É difícil ser otimista. Mas a situação, de tão imprevisível e desfavorável à maioria da população, será capaz de alimentar as forças pela retomada da nação e breve poderemos dizer como Belchior: “vejo vir vindo no vento/ o cheiro da nova estação”. 

Publicado originalmente no portal O Povo Online