3 de janeiro de 2018

"PDT de Ciro é campeão de alianças com golpistas" por Daniel Andrade

Ciro Gomes tem atraído uma parcela da população que dedicou sua energia a combater o golpe institucional. Sua forma de discurso, agressiva, aparenta uma disposição a maiores enfrentamentos com a sórdida elite herdeira da escravidão que domina o país. 

Esta posição mais "combativa" bem como um discurso mais nacionalista parece localizá-lo à esquerda do lulismo e à margem da conciliação de classes. Mas trata-se de todo o contrário. Seu partido, mais que o famoso governismo do PMDB, é o campeão nacional de coligações como mostrou pesquisa da Folha de São Paulo.

Pesquisa publicada hoje mostra como o PDT é o campeão nacional de coligações "polivalantes", ocupa cargos de relevância em 22 governos estaduais que vão do PSDB ao PT, passando noblesse oblige pelo PMDB, coisa que o PT também faz.

Esta situação mostra como não há caminho fácil para fora da conciliação de classes. Não há lições que Lula e o PT aprendam pois nasceram e inscrevem em seu programa a conciliação, e não importa o golpe, a reforma trabalhista, nada, o caminho que oferecem é mais e mais conciliação, assim se entende o "perdoar golpistas de Lula" e conciliar com empresários, nem o velho partido da conciliação varguista agora capitaneado por uma das famílias mais tradicionais da política cearense que vai oferecer por mágica o que temos que resolver pela militância.

O PDT carrega em seu "DNA" a conciliação. Nascido das entranhas do varguismo para representar os interesses dos trabalhadores em conciliação com interesses empresariais e das elites políticas representadas no PSD. O PDT é o herdeiro político do velho PTB. No final da ditadura, Brizola foi obrigado a adotar um novo nome para seu velho partido por imposição e chicana da ditadura que quis diminuir-lhe o "recall" político em setores de massa ao não permitir o velho nome e entregar a inexpressiva Ivete Vargas que serviu para a manobra unicamente para roubar a velha sigla.

Ciro não difere tanto do partido onde agora repousa suas ambições, também trás em sua trajetória inegável trânsito em todos lados da política pátria. Nasceu à política no PDS, partido de Maluf e herdeiro da ARENA da ditadura, depois rumou ao PMDB e foi junto do tucano paulista e do milionário Jereissati fundador do PSDB cearense. Foi ministro de Itamar Franco, e presidiu a privatização da Embraer, depois se fez crítico de FHC e do plano real entrando no ainda lulista PPS e concorreu a presidência em chapa apoiada pelo PFL de um grande cacique regional e símbolo da ditadura, ACM. Depois rumou ao PSB, formou um novo partido, o PROS e agora repousa no PDT.

O breve estudo da Folha que motiva estas ainda mais breves linhas mostram uma realidade que precisa ser mostrada por mil e um caminhos e argumentos. A conciliação com os empresários e com os políticos que a eles representam está na antípoda do que precisamos para oferecer ideias radicais aos trabalhadores e a juventude.

A "radicalidade" anticapitalista das ideias é necessária não somente porque se trata da resposta adequada a um capitalismo que cada vez quer fazer ainda piores nossas condições de vida, que utiliza avanços civilizatórios como o aumento da expectativa de vida para trucidar direitos como na reforma da Previdencia. Mas também esta "radicalidade" é necessária como resposta à "crise orgânica" em que vivemos, onde uma parcela dos trabalhadores se frustraram com os partidos tradicionais e procuram em Ciro, em Bolsonaro e outros a aparência de algo novo. Só uma esquerda anticapitalista que batalhe pela construção de um verdadeiro partido revolucionário pode oferecer um programa a altura de ideias fortes.

A tarefa histórica de superação da conciliação de classes não se resolverá pela esperança que um PT se ressignifique nem que um PDT, burguês de nascimento, venha a fazer diferente do que ele é. A esta tarefa cabe não a esperança de um salvador das velhas elites mas nosso esforço consciente.

Publicado originalmente no portal Esquerda Online