16 de janeiro de 2018

O estranho distanciamento entre o contexto nacional e o cenário cearense por Érico Firmo

Os pilares da oposição na campanha de 2016 (Foto: Mateus Dantas)
O veto do senador Tasso Jereissati (PSDB) a uma aliança com Jair Bolsonaro (PSC-RJ) provavelmente deu ao Capitão Wagner (PR) o pretexto que queria para desistir de concorrer ao Governo do Estado. Diante da falta de alternativas, ele disse estar disponível. Mas, ao se deparar com as dificuldades, recuou. A oposição cearense tem, ou tinha, três pilares: Tasso, Wagner e Eunício Oliveira (PMDB). Nenhum deve concorrer ao governo.

Eunício seria a primeira opção, uma vez que disputou o cargo em 2014. Porém, está decidido a tentar a reeleição como senador e tratou de defender o nome de Tasso para a disputa. Isso foi antes de se aproximar de Camilo Santana (PT). Hoje, é aliado estratégico do governador, pelo menos administrativamente.

Tasso, porém, trata de se esquivar. Nega intenção de ser candidato, após três passagens pelo Governo do Estado. Resiste aos apelos dos aliados. E defende o nome de Wagner na disputa. O capitão, por sua vez, queria Tasso na disputa.

Wagner até admitiu concorrer, mas se deparou com a conjuntura inglória. Limitação de palanque imposta por Tasso, falta de recursos, Eunício se debandando para o lado governista, Camilo Santana com candidatura bastante estruturada. Também desistiu.

O fato é que, hoje, a oposição no Ceará está perdida, sem rumo, sem perspectiva. Não tem candidato. Ou aposta numa novidade - quem sabe para construir um nome pensando no futuro, mas sem chances reais na disputa - ou terá de convencer um dos três caciques a mudar de ideia.

No cenário de hoje, um resultado que não seja a reeleição de Camilo seria surpreendente.

A falta de rumo da oposição é inusitada. Em tese, nunca o bloco esteve tão bem situado. Para começar, está no Governo Federal. Além disso, Eunício, ex-opositor, é presidente do Senado. Tasso Jereissati é nome forte no PSDB nacional e dirigiu o partido até um mês atrás. Mesmo assim, o grupo não consegue organizar um projeto no Estado.

Esse deslocamento entre a política estadual e o projeto nacional é incomum. Sempre houve certo alinhamento no pós-redemocratização.

Para lembrar: 
Tasso foi eleito, em 1986, na fase de euforia do Plano Cruzado, no governo José Sarney (PMDB).
Em 1990, Ciro Gomes não chegava a ser o candidato de Fernando Collor, mas era mais próximo que o opositor Paulo Lustosa então no PMDB, que dirá do então petista João Alfredo. Aquela, além de tudo, foi a última eleição estadual descasada da disputa federal, realizada um ano antes, em 1989.
Em 1994, Tasso foi eleito junto com a ascensão de Fernando Henrique Cardoso (PSDB). Ambos foram reeleitos juntos.
Em 2002, Tasso elegeu Lúcio Alcântara, mas no sufoco diante da onda Lula que impulsionou José Airton.
Em 2006, Cid Gomes se elegeu em parceria com o lulismo, e assim se reelegeu em 2010.
Em 2014, Camilo Santana venceu enquanto Dilma Rousseff (PT) era reeleita.

Nunca houve distanciamento tão grande entre o contexto nacional e o cenário estadual.

Publicado originalmente no portal O Povo Online