1 de novembro de 2017

"Os motivos que podem esconder os fatos" por Érico Firmo

Tasso, Zezinho Albuquerque e Camilo em evento na residência oficial do Governador (Foto: Evilázio Bezerra)
Mesmo no PSDB, tem gente que não acreditou quando Tasso Jereissati (PSDB) disse que não será candidato a governador pela quarta vez. O POVO de ontem mostrou que o único deputado do PSDB na Assembleia, Carlos Matos, acredita que o senador pode ser levado a concorrer pelo contexto. Ontem, em entrevista à rádio O POVO/CBN, Luiz Pontes afirmou que seria indelicado Tasso, na casa de Camilo Santana (PSDB), dizer que será candidato contra Camilo. E que a declaração significa pouca coisa, pois Tasso nunca disse que seria candidato. Tudo verdade.


1) Afora a primeira candidatura, quando nem era político, Tasso negou intenção de concorrer a governador em 1994 e 1998. Em 2014, disse que não disputaria o Senado.
2) A circunstância para a primeira manifestação pública de Tasso sobre candidatura não poderia ser mais inadequada que a de segunda-feira, em plena residência oficial do governador.
3) O contexto pode, sim, deixar Tasso sem opção que não seja disputar o governo. É isso ou a oposição ficar sem candidatura competitiva. O que equivale a deixar a candidatura do PSDB sem palanque forte no Estado.

Tasso, portanto, tinha motivos para dizer, na casa de Camilo, que não será candidato, mesmo que isso não seja verdade ou não seja algo totalmente decidido. Sempre foi o estilo de Tasso agir. Primeiro, evitar confirmar candidatura antecipadamente. Além disso, nunca foi de dar respostas evasivas e deixar coisas no ar. Ainda que aquilo que diz mude dali a alguns dias.

Porém, do mesmo modo, o PSDB tem todos os motivos para seguir alimentando a candidatura de Tasso. Para dar sinalização às bases e aos aliados de que existe um projeto político estadual. E por não haver opção. Se não for Tasso, o PSDB e a oposição não têm com que se apresentar na disputa. Salvo surpresa de última hora, entrarão na condição de nanicos, com candidatura para aparecer com traço nas primeiras pesquisas.Papel vexatório para a oposição, alicerçada pela base aliada do Governo Federal. Para dizer que têm alguma pretensão em 2018, os oposicionistas cearenses só têm como alternativa dizer que Tasso será candidato, mesmo que ele diga que não.

AS CONDIÇÕES PARA CONCORRER

Uma coisa é certa: as bases para uma candidatura viável a governador não são construídas da noite para o dia. A menos de um ano da eleição, a arquitetura já precisaria estar em curso. Não dá para chegar a três meses da eleição e decidir concorrer. Ou essa costura de alianças e imagem começa desde já ou estará fadada ao fracasso. Por todos os motivos do mundo para dizer uma coisa ou outra, Tasso não tem mais idade para embarcar em aventura quixotesca.

O PESO DO TEMPO

Por falar em idade, o fator tempo deve ser considerado no que vier a ser decidido. Tasso faz 70 anos no fim de 2018. Caso eleito, terminará o mandato aos 74 anos. Todos os governadores nos últimos 20 anos tentaram a reeleição, hipótese na qual, se for bem sucedido, ele terminará o mandato aos 78 anos. Quando Tasso foi eleito pela primeira vez, tinha 37 anos. Ao final do eventual novo mandato, ele teria o dobro da idade da época da primeira vitória.
A política está cheia de exemplos de gente que não larga o poder de jeito nenhum, independentemente da idade. Mas, não é desprezível nessa questão toda o peso da disposição para percorrer centenas de municípios, gravar programa eleitoral todo dia e participar de debates. Mais ainda a energia necessária para governar nove milhões de pessoas.

CAMILO PERTO DO QUE CID TENTOU

Caso Tasso realmente não seja candidato e Eunício se alie a Camilo, o governador terá alcançado aquilo que Cid Gomes (PDT) sempre buscou. Por algum tempo, o ex-governador até conseguiu reunir todas as grandes forças políticas em seu arco de alianças — PT, PMDB e PSDB, além do PSB no qual estava o grupo Ferreira Gomes. Em 2010, quando chegou a eleição, os tucanos romperam com Cid e lançaram candidatura de oposição.
Na época, Cid disse que o rompimento só ocorreu por precipitação de Tasso. O então governador disse que trabalhava para evitar candidatura petista ao Senado, para fazer acordo com o PSDB. Como o tucano não esperou, houve o rompimento.

Desta vez, caso haja o grande acordo em torno de Camilo, novamente Tasso terá sido o protagonista. Agora ao decidir não concorrer.

Publicado originalmente no portal O Povo Online