16 de março de 2015

Mais de um milhão de pessoas protestam contra governo neste domingo

Paulista tomada: PM estima que ao menos 1 milhão de pessoas lotaram a avenida mais famosa de São Paulo (Foto: Eduardo Enomoto)
O número de pessoas que participaram dos protestos em 160 cidades do País e do exterior foi bem superior aos estimado pelos organizadores das manifestações. Os atos que lotaram, neste domingo (15/03), algumas das principais vias de 26 capitais e do DF, organizados pelas redes sociais, e mais de 130 localidades dentro e exterior, somaram, de acordo com a Polícia Militar, ao menos 1,6 milhão de pessoas. 

Em Sâo Paulo eram estimados, por exemplo, 110 mil manifestantes, que confirmaram presença pelas redes sociais no protesto na avenida Paulista. Mas, contabilizou a PM, havia cerca de um milhão de pessoas protestando contra o governo da presidente Dilma Rousseff e a corrupção, em meio à fraqueza da economia e inflação elevada, na maior de uma série de manifestações populares em diversas cidades de todo Brasil.

O instituto Datafolha, no entanto, registrou um número bem menor de manifestantes na Paulista: 210 mil. Mesmo assim, esse total é o dobro do que que era esperado. O número é referente ao total de manifestantes diferentes que participaram em algum momento do protesto. No pico da manifestação, segundo o Datafolha, por volta das 16 horas, havia 188 mil pessoas.

A chuva que caiu em alguns pontos da Avenida Paulista não foi suficiente para dispersar as pessoas, muitas delas munidas de cartazes com dizeres contra a presidente e contra seu partido, o PT. Dezenas de manifestantes na Paulista também exibiam faixas pedindo a volta da ditadura militar. Alguns deles levaram fotos de presidentes do regime.

No interior do Estado, houve manifestações em 55 cidades. Campinas reuniu ao menos 25 mil pessoas no protesto. Ribeirão Preto contabilzou 40 mil manifestantes. Em Sorocaba, havia 35 mil pessoas no protesto contra o governo. Em Santos, o ato reuniu 10 mil pessoas.

O ato foi convocado pelos redes sociais pelos grupos Vem Pra Rua, Revoltados ON LINE e Movimento Brasil Livre, os três principais que articularam os protestos. Os protestos tiveram um caráter pacífico, ao contrário dos ocorridos em junho de 2013, ocasião em que foram registrados vandalismo e confrontos entre policiais e manifestantes.

Apesar disso, a polícia do Distrito Federal lançou bombas de efeito moral para dispersar um pequeno grupo de manifestantes que lançaram pedras na direção de policias na Esplanada dos Ministérios após o final da manifestação em Brasília. Ao menos uma pessoa ficou ferida.

Em São Paulo, policiais militares prenderam integrantes do grupo chamado Carecas do Subúrbio no vão livre do MASP, na Avenida Paulista em São Paulo. Eles estavam carregando fogos de artifício, pistola de choque e gás pimenta durante a manifestação.

A manifestação contra o governo Dilma Rousseff na orla de Copacabana, zona sul do Rio começou na manhã do domingo. Reuniu 15 mil pessoas e foi marcada por pedidos de impeachment e de basta à corrupção. O MBL (Movimento Brasil Livre) recolheu assinaturas para protocolar o pedido de impeachment. O deputado federal Jair Bolsonaro (PP-RJ) foi assediado e também vaiado ao ser impedido de discursar.

Os manifestantes caminharam do posto 5 até o Hotel Copacabana Palace, onde, por volta das 12h30, o ato se dispersou.

Manifestantes se reuniram na tarde deste domingo (15) na Candelária, no centro do Rio, para um novo protesto contra o governo da presidente Dilma Rousseff. Por volta das 14h45, policiais militares estimavam que 2.000 manifestantes participavam do ato. Grupos presentes no ato defendem a intervenção militar. Por volta das 16h30, o grupo passou a caminhar pela pista central da avenida Presidente Vargas, sentido Central do Brasil, acompanhado de policiais militares.

Diante do Comando Militar do Leste, localizado na avenida, os manifestantes exaltaram o Exército e cantaram o Hino Nacional. O ato se dispersou por volta das 17h30 na Central do Brasil. Manifestantes ainda fizeram uma oração em memória ao cinegrafista Santiago Andrade, que morreu após ser atingido no ano passado por um rojão durante protesto.

BH e DF sem ocorrências graves

Em Belo Horizonte, 24 mil pessoas saíram de casa em Belo Horizonte protestar contra o governo. O ponto de encontro neste domingo na capital mineira foi a praça da Liberdade, símbolo da região centro-sul da cidade e antiga sede do governo de Minas. Segundo a Polícia Militar, não houve registro de ocorrências graves.

A concentração pró-impeachment e anti-PT começou por volta das 9h30, com a presença de 4.000 pessoas. Ao meio-dia, a praça estava tomada por participantes, que começaram a se dispersar no início da tarde. Parte do movimento foi em direção à praça da Savassi, área nobre de BH, enquanto alguns manifestantes seguiram para a praça Sete, no centro.

A Polícia Militar do Distrito Federal contabilizou 45 mil pessoas em manifestação na Esplanada dos Ministérios, na manhã deste domingo, em Brasília. O ato, agendado em diversas cidades brasileiras, pediu o impeachment da presidente Dilma Rousseff e o fim da corrupção.

A marcha teve início às 10h30, quando os manifestantes saíram do Museu Nacional em direção ao Congresso Nacional, e terminou por volta das 13h de forma pacífica. Nenhuma ocorrência foi registrada durante as 2h30 de protesto.

Em Salvador, as duas manifestações contra o governo Dilma Rousseff que aconteceram neste domingo reuniram mais de dez mil pessoas.

Os baianos se concentraram em um dos principais cartões postais da capital baiana. Com gritos de ordem e apitaço, os manifestantes, que vestiam verde e amarelo e carregavam bandeiras do Brasil, pediam o fim da corrupção e a saída de Dilma do poder.

Pacíficos, as manifestações foram realizadas em dois turnos: um pela manhã, por volta das 9h30, e outra à tarde, às 16h.

Em Belém, 60 mil pessoas, de acordo com os organizadores (30 mil, para a PM), protestaram no centro da cidade.

Em Maceió, os protestos reuniram cerca de 10 mil pessoas na capital de Alagoas. Em Vitória, de acordo com a PM, o número chegou a 700 pessoas. Em São Luís, no Maranhão, cerca de 3 mil pessoas ocuparam a avenida Litorânea.

Ao som de hinos das Forças Armadas e de paródia da famosa música de Geraldo Vandré, Para não dizer que não falei de flores, defensores de uma intervenção militar fizeram no Recife, neste domingo, caminhada na Avenida Boa Viagem, no mesmo local onde 8 mil pessoas se manifestaram pela manhã contra o governo Dilma.

Em Porto Alegre foram cerca de 100 mil pessoas no protesto, de acordo com a Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul, e Curitiba reuniu mais de 80 mil manifestantes, segundo a polícia.

Manifestações no exterior

Com gritos de "Fora PT, leva a Dilma com você", cerca de 100 pessoas protestaram neste domingo, em Nova York, contra o governo. A manifestação durou uma hora e meia e atraiu principalmente brasileiros que moram nos Estados Unidos, além de alguns estudantes e turistas que visitam a cidade.

Os manifestantes, que se reuniram na Union Square, uma praça em Manhattan, cantaram o hino nacional e seguravam placas com alguns pedidos, como o impeachment de Dilma, intervenção militar e o fim da corrupção. Além disso, gritavam "fora Dilma" e "basta de corrupção".

Houve também protestos em Sydney, Londres, Buenos Aires, Lisboa e Miami.

Os protestos repercutiram na imprensa internacional. Vários jornais europeus deram destaque ao evento em suas páginas na internet, trazendo informações, imagens e análises.

O jornal britânico The Guardian chamou os protestos de “demonstrações de direita” pela frustração com a “economia moribunda” e o escândalo de corrupção na Petrobras.

Com o título “Brasil: centenas de milhares de manifestantes pedem o impeachment de Rousseff”, a publicação trouxe uma descrição dos eventos em algumas cidades brasileiras e disse que, diferentemente das manifestações ocorridas na Copa das Confederações em 2013, as registradas hoje foram promovidas por “uma classe média predominantemente branca” que tomou as ruas para pedir o impeachment da presidenta.

Protestos contra corrupção

Vestidos com as cores da bandeira brasileira, a maioria dos manifestantes foi às ruas de 160 cidades de todas as regiões do País para reclamar principalmente da corrupção, em meio ao escândalo bilionário na Petrobras investigado pela operação Lava Jato, e problemas econômicos enfrentados pelo Brasil.

Devido aos protestos, a presidente Dilma pediu a alguns de seus ministros que ficassem em Brasília neste domingo para acompanhar as manifestações, e realizou uma reunião no Palácio da Alvorada para avaliar as acontecimentos.

O ministro Miguel Rosseto, da Secretaria-Geral da Presidência, escolhido porta-voz do encontro ao lado do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, afirmou em entrevista coletiva, no final da tarde deste domingo, que as pessoas que foram às ruas são aquelas que não votaram em Dilma na eleição presidencial do ano passado.

“As manifestações ocorridas hoje são manifestações onde majoritariamente participaram setores da sociedade críticos ao governo", disse Rosseto em entrevista coletiva. "Seguramente, majoritariamente, eleitores que não votaram na presidente Dilma Rousseff".

Cardozo afirmou que o governo está aberto ao diálogo com todos os setores da sociedade, inclusive a oposição, e que a presidente vai apresentar nos próximos dias medidas de combate à corrupção. Reiterou também a defesa do governo por uma reforma política "lastreada no ouvir da sociedade", que tenha como ponto principal o fim do financiamento empresarial de campanhas eleitorais e partidos políticos.

Durante o pronunciamento dos ministros, que foi transmitido pela TV, houve panelaço em diversas capitais, como Brasília, Rio e São Paulo, assim como ocorreu durante pronunciamento de Dilma na TV no último domingo (8).

Pedidos de impeachment

As manifestações deste domingo foram convocadas pelas redes sociais. A maioria dos grupos organizadores defende o impeachment da presidente, usando como argumentos uma suposta corrupção no governo do PT, o escândalo da Petrobras e os altos custos com impostos e tarifas, entre outras reclamações.

O presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), que foi derrotado por Dilma nas eleições presidenciais de outubro passado, disse no Facebook que “esse 15 de março vai ficar lembrado para sempre como o Dia da Democracia".

"O dia em que os brasileiros se vestiram de verde e amarelo e foram para as ruas se reencontrar com as suas virtudes, com os seus valores, e também com os seus sonhos", escreveu Aécio, que decidiu não ir para as ruas neste domingo.

Em 2013, no dia de maior mobilização nas manifestações um pouco antes da Copa das Confederações, cerca de um milhão de pessoas foram às ruas de cidades do país. Naquela ocasião, os protestos começaram contra o reajuste das tarifas de transporte público e acabaram gerando uma pauta de reivindicações bastante difusa, passando por melhoria de oferta de educação e saúde pelo governo e combate à corrupção, entre outras demandas.

Apartidários

O protesto contra o governo acontece dois dias após sindicatos de petroleiros e movimentos sociais realizarem manifestações a favor da Petrobras e da presidente Dilma, mas em escala bastante reduzida quando comparada ao movimento deste domingo.

Os organizadores dos protestos deste domingo afirmam que os movimentos não estão ligados a partidos políticos, mas legendas de oposição declararam adesão às manifestações.

O próprio Aécio convocou a militância tucana para ir às ruas protestar, ressalvando, porém, que o impeachment não faz parte da agenda do partido.

Cenário complicado

O governo de Dilma enfrenta um quadro de inflação cada vez mais alta, atividade econômica fraca, piora no mercado de trabalho e turbulência política com a base governista.

A esse cenário, soma-se o maior escândalo de corrupção da história do país envolvendo a Petrobras, ao qual estão ligados ex-funcionários, executivos de empreiteiras e políticos.

Pesquisa do instituto Datafolha em fevereiro mostrou que a avaliação ótima/boa da presidente despencou de 42 por cento em dezembro para 23 por cento em fevereiro, enquanto aqueles que a consideram ruim/péssima passaram de 24 por cento para 44 por cento.

Com as manifestações deste domingo, Dilma se junta a outros dois presidentes que enfrentaram protestos populares no período da redemocratização: Fernando Collor de Mello e Fernando Henrique Cardoso.

Collor acabou sofrendo o impeachment, enquanto Fernando Henrique reverteu em parte a baixa popularidade do início de seu segundo mandato, superando inclusive uma campanha com ampla participação de petistas que tinha o slogan "Fora FHC".


Com informações Portal R7