9 de novembro de 2015

"Por dentro da mente de um editor mal-intencionado" por Fernando Morais

A nova era da comunicação, em que a internet se torna mais influente do que os meios de comunicação tradicionais, antes dominados por quatro ou cinco famílias aristocráticas, tem servido para revelar ao público os cacoetes de colunistas e editores que tentam vocalizar os interesses dos patrões. Todos eles seguem uma agenda política oculta, raramente revelada aos leitores.

Um exemplo quase caricatural dessa lógica ocorreu na edição deste sábado do jornal Estado de S. Paulo, quando o jornal se viu compelido, pela força dos fatos, a noticiar que o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso recebeu pagamentos mensais da Odebrecht, totalizando quase R$ 1 milhão, por uma palestra que, aparentemente, não ocorreu.

Numa situação dessas, o melhor seria ignorar os fatos – o que seria impossível na era da internet. Como, então, noticiar algo constrangedor para um amigo da casa? Foi aí que entrou em cena a criatividade de um editor mal-intencionado. O primeiro passo foi republicar uma notícia velha e requentada sobre o ex-presidente Lula no topo da página.

Depois, as legendas falam por si – da escolha das fotos, ao uso da ordem direta ou indireta, tudo foi feito para satanizar Lula e poupar FHC, como pode ser visto na imagem abaixo:

O partidarismo escancarado da imprensa brasileira encontra seu exemplo mais grotesco em duas capas recentes de Veja – numa delas, FHC é santo; em outra, Lula é bandido.

É por essa militância cega que a imprensa nacional, de forma recorrente, incorre em erros graves, como aconteceu com o jornal O Globo. No afã de condenar o ex-presidente Lula, O Globo estampou em sua manchete que Fábio Luis Lula da Silva era citado na delação premiada de Fernando Baiano. No entanto, era mentira, como se viu na capa de hoje do jornal da família Marinho.

A conclusão óbvia é que, ou a imprensa busca maior equilíbrio, ou será cada vez mais desmoralizada, numa era em que a internet impôs vigilância sobre todos os meios.

Publicado originalmente no portal Brasil 247