22 de janeiro de 2017

"PT busca sobrevivência de forma errática" por Érico Firmo

Posto para fora do governo, derrotado nas eleições municipais e bastante enrolado com denúncias, o PT parece não saber que rumo tomar para sair da crise sem precedentes em que mergulhou. Não falo nem para voltar ao topo. 

O que aparentemente está em jogo é a própria sobrevivência do partido como força política minimamente relevante. A confusão se dá nos vários níveis.

Em Brasília, a tendência da bancada do PT é apoiar os candidatos de Michel Temer (PMDB) para as presidências da Câmara e do Senado. É inacreditável. Os petistas denunciam terem sido vítimas de um golpe que foi consumado há pouco mais de cinco meses. Ato esse que teve como protagonistas PMDB, PSDB e DEM. O primeiro caminha para ter apoio petista para presidir o Senado e o último, para comandar a Câmara. O segundo terá forte presença em ambas as casas.

É preciso muito sangue de barata — para não dizer desfaçatez, descaramento — para apoiar a quem se acusa aos quatro cantos ter praticado golpe contra você. E não um golpe que teria sido cometido há 50 anos. Foi há meses que se pode contar nos dedos da mão. E acordo não para um carguinho qualquer, mas para as presidências das casas do Poder Legislativo. Para definir, hoje, o primeiro e o segundo homem da linha sucessória da Presidência da República.

Razão tem o Ciro Gomes (PDT), em sua manifestação sobre o assunto: “Se isso acontecer na Câmara, especialmente, ou no Senado, terá sido porque de fato o PT não aprendeu nada com toda a grande tragédia que aconteceu com ele”. E acrescentou: “Como é que pode o PT, sendo o partido que foi golpeado, que denunciou para o País e para o mundo que o País experimentou um golpe, trocar o compromisso com o futuro por meia dúzia de carguinhos irrelevantes?”.

Nem todos os petistas concordam com o acordo. Alguns ensaiam movimento para que o partido não embarque nessa aliança. Na Câmara, por exemplo, defendem apoio ao cearense André Figueiredo (PDT). Porém, esses aí hoje são minoria.

A divisão entre petistas não fica só em Brasília.

No Ceará, o governo petista/pedetista de Camilo Santana indica um tucano para a secretaria que passa a ser a mais poderosa da gestão. E não é um tucano qualquer. É um tassista de quatro costados. Alguém que não apenas segue a cartilha de como o PSDB governa. Ele ajudou a escrevê-la no Estado.

Dez anos atrás, quando Cid Gomes nomeou o então tucano Marcos Cals para a Secretaria da Justiça, houve mal-estar com os petistas, que então eram aliados do governador. Nelson Martins, hoje colega de Maia Júnior, foi dos que protestaram. Hoje ainda há reclamações pontuais. Mas, se antes o PT era o aliado que protestava, hoje é um petista quem governa e escolhe um tucano. O cargo também cresceu em relevância. Bem como o grau de vinculação do tucano escolhido com o próprio PSDB.

Em Fortaleza, a bancada de dois vereadores do PT está dividida sobre a posição em relação à gestão Roberto Cláudio (PDT). O líder, Guilherme Sampaio, defende que se faça oposição ao prefeito. O único vereador liderado por Guilherme, Acrísio Sena, é favorável ao diálogo com a gestão municipal.

Nas várias polêmicas, o PT está na encruzilhada entre ser pragmático ou se apegar ao que resta de princípios ideológicos. Se não fizer acordo para a eleição das mesas diretoras do Congresso Nacional, o partido terá ainda menos espaços, cargos e funções importantes. Em Fortaleza, se confrontar o prefeito, o partido ficará isolado. Afinal, também não aceitou compor bloco de oposição com PSDB e PR.

Por qualquer caminho, o PT perde. Não existe caminho sem ônus. O cálculo a fazer é se perde menos com acordos para se agarrar ao que conseguir ou ao decidir isolar para ser coerente e minimamente fiel ao discurso que procura sustentar.

Publicado originalmente no portal O Povo Online