29 de janeiro de 2017

"O Facebook engolindo a Internet?" por Plínio Bortolotti

Você sabe o que é a Internet? É o Facebook ou é algo muito maior? Para 55% dos brasileiros Internet e Facebook são a mesma coisa. Mas, apesar de sua grandeza, o Facebook é apenas um dos componentes da World Wide Web, a rede mundial de computadores.

O “WWW” É UM sistema de hipermídia, que reúne várias mídias (texto, som, imagens e imagens em movimento), interligadas por sistemas eletrônicos e executadas na internet. A World Wide Web foi desenvolvida pelo físico inglês Tim Bernes-Lee, quando trabalhava nos laboratórios da Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (Cern).

GRAÇAS AO SISTEMA desenvolvido por Bernes-Lee, foi possível sair de uma rede fechada, criada nos Estados Unidos – usada para a circulação de informações entre computadores do governo – para o sistema público que conhecemos hoje, que permite o uso por qualquer pessoa com um dispositivo conectado à rede.

BERNES-LEE, considerado o “pai da web”, não quis patentear sua invenção por entender que a rede deveria ser livre e pública – e continua sua luta para que assim seja, incluindo confrontos com os grandes da internet, como o Facebook e Google, que praticamente monopolizam a rede e mantêm seus usuários sob regras as quais ninguém conhece bem, ditadas por seus proprietários. (Barnes-Lee, em entrevista ao jornal britânico The Guardian, lançou um repto:

“Diga ao Facebook e ao Google que você quer seus dados de volta”.)
VOLTANDO À PESQUISA, ela foi produzida pela Quartz e divulgada como parte do relatório “Internet Health Report v0.1”, da Fundação Mozilla.

OS PESQUISADOS tinham de responder a esta pergunta: “Você concorda com a seguinte afirmação: o Facebook é a internet?” No Brasil a taxa de concordância foi de 55%, entre as maiores dos países pesquisados, depois da Nigéria (65%), Indonésia (63%) e Índia (58%); nos Estados Unidos, o índice foi de apenas 5%.

PARA A MOZILLA, esse baixo nível de conhecimento representa um perigo à “saúde” da internet: “Sem conhecimento, não podemos esperar que as pessoas entendam o que a internet pode fazer por elas, ou por que elas devem se importar (com a rede)”.

MESMO NOS países europeus, um resultado “alarmante” chamou a atenção dos pesquisadores: metade da força de trabalho da Europa não tem conhecimento digital adequado para o mercado de trabalho.

AS CONSEQUÊNCIAS do desconhecimento é que as pessoas tornam-se presas fáceis das notícias falsas e boatos. (Nesta coluna já escrevi texto mostrando que crianças e jovens têm dificuldade de diferenciar notícias falsas e verdadeiras e também separar publicidade de matéria jornalística.)

ALÉM DISSO, o relatório constatou a concentração brutal na internet: o Google é responsável por mais de 75% das pesquisas feitas nos computadores e por 95,9% dos acionamentos via smartphones; o Facebook tem 1,7 bilhão de usuários, a maior rede social do mundo. (Já escrevi texto afirmando que chegará o tempo, se já não chegou, em que sentiremos saudade do monopólio da Rede Globo.)

O FATO É QUE a promessa de democratização que a internet traria está se tornando apenas uma miragem. Já fui classificado como “atrasado” ou “dinossauro” em alguns debates por levantar questões parecidas. E o ataque sempre terminava assim: por que então você não deixa de usar a internet? A minha resposta: porque seria o mesmo que pedir alguém para deixar de usar a energia elétrica.

OU SEJA, a internet não é um mal em si, é apenas uma técnica, um meio, o resultado – bom ou mau – depende, portanto, do uso que se faz dela, tanto individual como coletivamente.

Desigualdades
O relatório da Mozilla mostra que 58% da população mundial não têm como pagar por uma conexão de banda larga e 40% não conseguem nem sequer arcar com uma conexão via smartphone. “Nos piores casos, a internet pode reforçar e exacerbar as desigualdades, divisões e práticas discriminatórias existentes.”

Banco Mundial
Estudo do Banco Mundial (veja um dos links abaixo) chegou à mesma conclusão, mostrando que a ideia da internet como democratizadora do acesso à informação pode não se cumprir. Pelo contrário, a rede pode estar aumentando a desigualdade no mundo.

Dividendos
As mudanças não melhoraram o acesso a serviços públicos ou o aumento das oportunidades econômicas, como se previa. “As tecnologias digitais estão se espalhando rapidamente, mas os dividendos do crescimento digitais, empregos e serviços têm ficado para trás”, anota o relatório do Banco Mundial.

Publicado originalmente no portal  O Povo Online