6 de maio de 2026

Cofeco mantém atividades 28 anos após privatização da Coelce

A Colônia aposta no apego afetivo dos fortalezenses com o espaço (Foto: Samuel Setubal)

Os fins de semana e feriados dos anos de muitos fortalezenses durante os anos 1980 e 1990 tinham lugar certo: a Colônia de Férias dos Empregados da Coelce (Cofeco). Localizada próxima ao limite de Fortaleza com Aquiraz, no bairro Sabiaguaba, o espaço ficou famoso pela restrição de uma colônia de férias fechada para os empregados da antiga Companhia de Energia Elétrica do Ceará (Coelce) e grande beleza natural, com acesso à praia da Abreulândia e ao Rio Pacoti.

Maurício de Oliveira, 63, trabalha no local há 43 anos e lembra do período em que as casas estavam sempre ocupadas e que as inscrições para passar as férias ou folgas coletivas no local chegavam com meses de antecedência.

"Toda semana era lotado. Naquele tempo a Coelce tinha muitos funcionários. Chegava ter 4.500 funcionários. Então assim, na época o pessoal para reservar uma casa dessas, você tinha que se inscrever dois meses antes porque era muito sócio", conta o eletricista.

A rotina era sempre de casa cheia pelos colaboradores da empresa, que de tanto frequentarem a Colônia, muitos se tornaram amigos íntimos de Maurício e de outros funcionários.

Esse cenário, entretanto, começou a mudar drasticamente em 1998, quando a Companhia foi vendida para a distribuidora de energia italiana Enel.

Com a privatização, muitos funcionários foram demitidos da Coelce (mesmo com a venda, nome continuou a ser usado até 2016) e deixaram de ser associados, o que diminuiu radicalmente a receita do local.

A saída encontrada pela administração foi abrir o espaço para pessoas de fora da Companhia, a fim de atrair receita e manter o uso do espaço que conta com campo de futebol, parque aquático, restaurante e passeio de canoa no rio Pacoti.

Atualmente, o quadro de associados conta com cerca de 480 sócios ativos, em planos anuais que variam entre R$ 1.400 e R$ 2.800.

Boa parte desses mantém o aluguel em especial para os períodos de Carnaval e Réveillon, épocas do ano em que o movimento ainda remete aos tempos áureos nos anos 1980 e 1990, com meses de antecedência. "Carnaval e Ano Novo nós temos lotação das casas", pontua o administrador da Cofeco há 25 anos, Mário Júnior.

O valor arrecadado com o quadro de associados é utilizado para custear o pagamento de funcionários e manutenção das 35 casas ativas disponíveis para aluguel hoje no local, bem como das atrações.

A renda, entretanto, ainda não substitui o valor apurado mensalmente antes da privatização, mas segundo Júnior, é o suficiente para manter a Colônia em dia com os empregados e manutenção.

Àquela época, a Coelce era responsável por dois terços da renda da Cofeco, por meio da complementação do valor mensal descontado na folha dos funcionários.

"Se todo mês eram descontados R$ 5 (correspondente a 3,86% do salário mínimo da época) na folha do empregado, a Coelce complementava com mais R$ 10", explica Júnior.

O baque financeiro foi sentido inclusive devido à uma dívida criada junto à Coelce após o fim do vínculo. Entre 1998 e 2001, houve um período de transição a fim de facilitar a organização da Cofeco nos primeiros anos pós privatização.

Durante esse período, a Cofeco acumulou R$ 800 mil em dívidas de conta de luz. Antes da privatização a fatura não era cobrada à Colônia.

O caso foi resolvido após acordo entre Coelce e Cofeco na justiça, com a Colônia pagando cerca de R$ 480 mil parcelados ao longo de dez anos.

"Logo quando foi privatizado, como era a Coelce era do Estado, a ligação era gratuita de energia para cá. Quando foi privatizada, eles cortaram a energia daqui porque passaram uns tempos sem pagar, aí do dia que foi privatizada até o dia que eles fizeram o acordo, cortaram a energia da empresa aqui. Ficamos quatro meses sem energia", conta Astrogildo Venâncio, porteiro da Cofeco desde 1993.

Cofeco busca retomar tradição nas férias de Fortaleza

Quase 30 anos após a privatização, a Colônia de férias busca voltar aos bons tempos de lotação vividos no século XX.

Esse retorno passa muito pela abertura do quadro de associados e investimentos em reforma das casas desgastadas com o tempo. Além das 35 ativas, o espaço tem outras 25 interditadas devido aos impactos causados pela maresia nas últimas duas décadas.

A Colônia aposta no apego afetivo dos fortalezenses com o espaço, que frequentavam restaurante, balneário, escola e até mesmo a simulação de um foguete dentro da Cofeco.

"A gente ainda tem um fluxo bom de gente que gosta e quer viver a memória de quando era pequeno. Muitos casamentos que foram feitos, gente que conheceu a esposa aqui. Muitos filhos dizem 'ah, meu pai me fez na Cofeco'. A gente tá trabalhando para que ela venha ser tal qual ela antes", afirma Júnior.

Outro ponto trabalhado para atrair novos visitantes é a preservação natural. A Colônia está localizada dentro da Área de Preservação Ambiental (APA) do rio Pacoti, e tem na paisagem natural de dunas e de vegetação um de seus carros-chefe para atrair público.

A preservação do espaço é feita em grande parte pelos funcionários mais antigos do local, que atualmente moram nas casas da Cofeco.

Eles são responsáveis pelo acompanhamento do uso do espaço pelos visitantes, garantindo o descarte regular do lixo, o respeito às regras ambientais do uso do rio Pacoti.

Maurício, por exemplo, é o eletricista chefe da Colônia, que cuida da manutenção contínua dos circuitos para evitar possíveis incêndios.

Periodicamente também há a contratação de equipes para realizar a poda, remoção e replantio de árvores nativas.

Os novos sócios também são escolhidos muitas vezes por indicação de quem já conhece as regras do local e passam por entrevista para garantir que o novo usuário irá colaborar para a preservação da passagem natural.

"Aqui é muito bonito. Então a gente não tem interesse em vender o ambiente para ninguém, transformar em alguma selva de pedra, porque é um dos locais Fortaleza com uma gama muito grande da natureza. Aqui nós temos famílias que vem para essa casa e elas não querem ficar dentro da casa, elas querem desfrutar do ambiente", relata o administrador do espaço.

Publicado originalmente no portal O Povo +

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