3 de julho de 2026

Flávio Bolsonaro tenta reescrever papel da família nas tarifas de Trump, por Érico Firmo

A preocupação de Flávio Bolsonaro não é econômica. É com a perda política (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Flávio Bolsonaro (PL) mandou uma carta a Marco Rubio, secretário de Estado do governo Donald Trump, na busca de se apresentar como mediador para evitar a taxação dos Estados Unidos ao Brasil. Enviou outra ao Escritório do Representante Comercial americano. O movimento pretende reescrever o papel dos Bolsonaro nessa história. Algo almejado desde quando o desastre político se evidenciou, há quase um ano.

Carta inacreditável

A segunda carta é repleta de absurdos. Flávio aponta novas tarifas como favoráveis ao governo Lula. “Pior ainda, os custos recairiam sobre a economia americana e sobre os brasileiros mais comprometidos com o relacionamento construtivo com os EUA”. Nesse último caso, fala de si. O problema não é o impacto econômico, mas o prejuízo político dele. Flávio ainda reclama da ocasião das medidas, antes da eleição. Se for depois, então tudo bem? Na resposta à primeira carta, Rubio ainda revelou que Flávio colocou uma equipe de transição à disposição deles. Um governo estrangeiro.

Desconheço precedente no mundo de situação tão ridícula. O governo Trump usa as tarifas como instrumento de interferência na política interna de outros países. E, publicamente, um pré-candidato a presidente mantém tratativas e argumenta que a medida, ainda mais agora, favoreceria o adversário.

O comando da Casa Branca é tão tosco que o discurso é capaz de ter poder de convencimento. Questões tributárias são subordinadas a alinhamentos ideológicos.

Em tempos mais racionais, um pré-candidato envolvido nesse tipo de situação já estaria inviabilizado em um instante.

O que os Bolsonaro tiveram a ver com as tarifas

Breve recapitulação: quando as sanções foram impostas em julho do ano passado, o ex-presidente Jair Bolsonaro defendeu a anistia como caminho para evitar as medidas. “A solução está nas mãos das autoridades brasileiras. Em havendo harmonia e independência entre os Poderes nasce o perdão entre irmãos e, com a anistia, também a paz para a economia”, afirmou em nota, na qual acrescentou: “(...) tem muito mais, ou quase tudo, a ver com valores e liberdade, do que com economia”.

Na mesma semana, o pai de Flávio foi alvo da Polícia Federal, passou a usar tornozeleira e mudou de discurso rapidinho. “O que incomodou o governo americano, e muito, foi, por ocasião do Brics, o Lula falar em um novo padrão monetário, quer o dólar fora das negociações do Brics, entre outras coisas que ele fez”.

Na semana seguinte, Bolsonaro tentou se desvincular do assunto. “Isso é lá do governo Trump. Não tem nada a ver com a gente. Querem colar na gente os 50%. Mentira”. Agora releia a primeira manifestação do ex-presidente e veja a cara de pau de atribuir a outros um discurso apregoado por ele próprio. Observe como ele e o filho Eduardo Bolsonaro comemoraram.

Aliás, no mesmo dia no qual o pai falava isso, Eduardo e o cúmplice Paulo Figueiredo disseram saber antecipadamente das tarifas e manifestaram concordância com elas.

"Quando essa opção foi discutida com o deputado Eduardo Bolsonaro e nós, nós demos a nossa opinião. Na nossa opinião, esta medida não era a melhor a ser aplicada naquele momento. Nós advogamos na direção de sanções direcionadas aos agentes principais da ditadura", falou Paulo Figueiredo. Eduardo Bolsonaro acrescentou: "A gente não imaginou que no início fosse decretada a tarifa. Mas como o Paulo bem falou, nós não somos o presidente dos Estados Unidos. Não temos o poder da caneta". A seguir, Figueiredo admitiu ter ficado "100% convencido" do acerto de Trump ao taxar o Brasil. "Eu concordo", completou Eduardo.

No começo de agosto, em entrevista ao O Globo, Eduardo declarou: "Dou graças a Deus que ele (Donald Trump) voltou suas atenções para o Brasil. Acho que tem valido a pena", disse quando as tarifas entraram em vigor. Ele confirmou ainda trabalhar por mais sanções: “Trabalho sim, neste sentido. Estou levando a prisão ao conhecimento das autoridades americanas e a gente espera que haja uma reação”.

Papel de Flávio

Como mencionei em outra coluna, na época das primeiras sanções, em meados de 2025, Flávio Bolsonaro foi o único membro da família a ensaiar uma discordância em relação às medidas. Mas logo depois ele apagou a publicação. “Quando apertei o send (enviar), eu já me arrependi na hora, porque eu não quero ficar parecendo que estou fazendo alguma análise se o Trump está certo ou errado”, justificou-se.

Na ocasião, ele também associava a postura da Casa Branca à situação de Jair Bolsonaro. “Se o Brasil fizer o dever de casa, acaba a sanção no mesmo dia”. E completava: “Se a gente fizer eleições com Jair Bolsonaro nas urnas, não vai ter mais a qualificação, pela maior democracia do mundo, de nos tratar como se fosse Venezuela”.

Lula iniciou 2025 no pior momento de popularidade, com a crise envolvendo a fiscalização de operações por Pix. A recuperação começou a partir das taxas de Trump.

Isso explica o rebranding sobre o tema.

A preocupação de Flávio não é econômica. É com a perda política. Estivesse preocupado com economia, no ano passado não teria agido de forma tão pusilânime.

Publicado originalmente no portal O Povo +

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