8 de novembro de 2026

A onda virou? O que a vitória de Lula e derrota de Trump significam para esquerda e direita? por Thays Maria Salles

As vitórias de Lula e dos democratas não se resumem à mudança na distribuição de poder entre direita e esquerda (Foto: Reprodução/BA/Redes Sociais)

As eleições brasileiras, que deram a Lula uma vitória marcada por ineditismos para um quarto mandato, chamaram atenção também pelo contraste com os resultados eleitorais de outros países. Para a esquerda internacional, o desfecho representou um sinal de esperança em meio ao avanço da extrema direitano mundo, impulsionado, em parte, pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. No Brasil, a articulação do campo progressista mostrou capacidade de mobilização e impediu a continuidade desse movimento nas urnas.

A repercussão ficou evidente logo após a apuração do segundo turno. Enquanto o derrotado, o senador Flávio Bolsonaro (PL), não reconhecia o resultado, o presidente reeleito recebia manifestações de apoio de líderes estrangeiros. O gesto de formar a letra L com o indicador e polegar, popularizado nas campanhas petistas, ganhou projeção internacional. Uma das manifestações mais emblemáticas foi a da presidente do México, Claudia Sheinbaum, que reproduziu o símbolo ao parabenizar Lula. Políticos e manifestantes também passaram a fazer o L em países como Espanha, Chile, Itália, Líbano e França.

Com eleições antecipadas para o fim deste mês de novembro na Espanha, o primeiro-ministro Pedro Sánchez mencionou o cenário brasileiro ao comentar o desempenho dos democratas nas eleições de meio de mandato dos Estados Unidos, que avançaram no Parlamento americano sobre os republicanos. “Aconteceu no Brasil. Acabou de acontecer nos Estados Unidos. E acontecerá em breve na Espanha”, projetou.

Essa sucessão de episódios, contudo, não permite concluir que a direita tenha perdido a dianteira no mundo. A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), a derrota do Partido Republicano nos EUA e as manifestações de apoio de dirigentes estrangeiros apontam para uma reação de movimentos progressistas, mas ainda não configuram uma mudança consolidada de ciclo político.

Em países como Hungria, Suécia, Sérvia e Israel, forças conservadoras também perderam espaço. A sequência de resultados chama atenção depois de anos de crescimento da extrema direita, mas precisa ser analisada à luz das particularidades de cada disputa.

Para a professora Denilde Holzhacker, coordenadora do Núcleo de Estudos e Negócios Americanos (Nenam) da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), parte da explicação está na capacidade de o campo progressista transformar insatisfações sociais em mobilização.

“O que a gente viu no caso do Brasil e no caso dos Estados Unidos, como outros países também já se percebe esses sinais, é que o discurso da polarização, mas principalmente o esgotamento democrático e a perspectiva das perdas de direito, de acesso e de políticas importantes para determinados grupos, acabam sendo fatores de mobilização do campo progressista”, observa.

Na análise da professora da ESPM, os democratas americanos e os movimentos de esquerda brasileiros compreenderam a necessidade de aproximar o debate político das preocupações cotidianas da população. “De um discurso mais abstrato, todos eles passaram a ter discursos do que que significam as políticas que têm sido implementadas por governos de direita para a vida das pessoas”, aponta ela, que é doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo (USP).

Holzhacker também relaciona o processo à retomada de grandes manifestações na Europa, sobretudo entre estudantes. Conforme analisa, os movimentos progressistas têm conseguido incorporar reivindicações que, em outro momento, alimentaram o crescimento da direita. “Traduzir as insatisfações que tinham mobilizado a direita, que fomentava os grupos de direita, agora conseguem também se traduzir nas demandas progressistas”, contextualiza.

“Esse movimento, sim, me parece ter uma capacidade de ampliação internacional”, acrescenta a professora da ESPM.

Professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Henrique Zeferino de Menezes também identifica sinais de reação, mas ressalta que vitórias recentes da extrema direita impedem falar em encerramento de ciclo. Ele menciona o avanço do partido Alternativa para a Alemanha (AfD) em eleições regionais, mas há ainda os resultados de forças de direita no Peru e na Colômbia. Em Israel, a perda da maioria pela coalizão do primeiro-ministro Benjamin Netanyahu tampouco significou o enfraquecimento desse campo: o bloco liderado pelo Likud, partido do premiê, conquistou 53 no Knesset – o Parlamento israelense.

Na avaliação de Menezes, as vitórias de Lula e dos democratas americanos podem representar o início de “um processo de retomada de uma agenda mais global” vinculada à esquerda e à centro-esquerda.

Apesar das diferenças entre os processos eleitorais desses países, o professor identifica um ponto de convergência entre as disputas. “O fortalecimento de uma agenda ou a vitória de uma agenda política mais democrática, mais progressista e que se moveu, de certa forma também, numa tentativa de parar essa onda de extrema-direita, autoritária, antidemocrática”.

Menezes pondera, contudo, que os resultados eleitorais precisam ser compreendidos a partir das condições de cada país. No Brasil, Lula disputou a reeleição e venceu. Nos EUA, as eleições de meio de mandato não escolhem o presidente, mas funcionam como uma avaliação da administração em exercício e renovam cadeiras do Congresso. Para o professor da UFPB, o desempenho democrata expressa a insatisfação com a gestão republicana.

“Pelo resultado das urnas, o que os norte-americanos disseram é que o governo Trump está sendo muito mal avaliado”, afirma ele, que é doutor em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

O docente acrescenta que a extrema direita desenvolveu estratégias de mobilização baseadas em sentimentos de medo e insatisfação, mesmo quando os indicadores econômicos não apontam necessariamente para uma crise. O desgaste de governos que não conseguem apresentar resultados concretos, por outro lado, pode alimentar a reação dos eleitores. Nos Estados Unidos, ele cita a alta do custo de vida e a violência das operações migratórias.

“A vida real acaba também criando o combustível para uma revolta, nesse caso, eleitoral contra o governo Trump”.

Próximas urnas vão testar a força da reação progressista

A hipótese de nova onda internacional progressista será testada em em breve. Espanha, França e Argentina terão eleições capazes de indicar se a direita perdeu impulso ou se as vitórias recentes são movimentos pontuais.

Na Espanha, as eleições foram antecipadas para 29 de novembro. Para a professora Denilde Holzhacker, da ESPM, o pleito será um indicador da "capacidade de resistência" progressista. O desafio de Sánchez, diz ela, será manter uma coalizão forte à esquerda em meio à crise. O governo antecipou a votação depois de não conseguir aprovar no Congresso um pacote emergencial contra a crise de moradia, enquanto protestos atingem diferentes regiões do País.

Na França, a instabilidade pode fortalecer a oposição progressista ou levar eleitores à direita radical.

O cenário israelense exige interpretação própria. A perda de espaço da coalizão de Benjamin Netanyahu não representa, por si só, ruptura com a predominância conservadora. A professora da ESPM lembra que o Likud continua sendo a maior legenda.

"A grande diferença é o crescimento dos partidos árabes, que passam a ser um pêndulo importante na configuração de uma coalizão, mas com todas as limitações do contexto do próprio Israel", indica.

A Argentina oferece outro parâmetro de observação: o alcance regional da vitória de Lula diante dos questionamentos às políticas do governo de Javier Milei e da crise econômica. "Mais importante do que isso é se a influência brasileira no campo progressista argentino vai ser suficiente para dinamizar e conseguir fazer com que os grupos peronistas ganhem novamente força. Essa, sim, seria uma sinalização importante não no quadro internacional como um todo, mas no quadro regional e na capacidade de o Brasil de fato ser um exemplo para outros países da América Latina. Esse é um grande teste para a nossa capacidade de liderança regional e, principalmente, de ser um exemplo para movimentos em outros países".

Mas, lembra a professora da ESPM, a derrota ou a vitória de um governo não significa adesão a um espectro político. Uma derrota eleitoral de forças conservadoras não significa necessariamente que os eleitores tenham aderido ao campo progressista, assim como a vitória de Lula não eliminou a influência da extrema direita no Brasil.

Que tipo de vitória

As vitórias de Lula, no Brasil, e dos democratas, nos Estados Unidos, não se resumem à mudança na distribuição de poder entre direita e esquerda. Para o professor de Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB) e doutor em Ciência Política pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Henrique Zeferino de Menezes, os resultados a renovação interna dos partidos vitoriosos, com a chegada de novos perfis ao centro da representação política.

Nos EUA, o desempenho democrata foi acompanhado pela eleição de jovens, mulheres e integrantes de grupos historicamente sub-representados. "Não só uma mudança de partido, mas também uma mudança dentro do partido democrata", observa o professor.

"Essa mudança de perfil dos indivíduos pode levar a gente pensar na possibilidade também de uma mudança na agenda política dos Estados Unidos", nota, citando como exemplos os primeiros dos EUA senador muçulmano eleito, Abdul El-Sayed; a primeira mulher negra eleita governadora, Keisha Lance Bottoms; e a primeira mulher indígena eleita governadora, Deb Haaland.

O professor da UFPB identifica um processo semelhante no Brasil. Embora a direita tenha conquistado espaço expressivo na Câmara e no Senado, na esquerda, novos líderes ganharem protagonismo. PT, PCdoB e Psol passaram por uma renovação marcada pela presença de jovens, mulheres e pessoas negras.

Dessa forma, a mudança não se limita à disputa entre projetos políticos, mas envolve quem ocupa os espaços de poder e quais grupos passam a participar de maneira mais expressiva das decisões institucionais.

Menezes chama atenção para a repercussão internacional da eleição brasileira. "A sensação que se passa das imagens e das manifestações que a gente vê, dos novos grupos se organizando, é de que a reeleição do Lula tem cara de ser uma espécie de um marco divisor de águas mesmo". Contudo, ele reforça que a dimensão internacional desse processo depende da confirmação nas urnas.

Publicado originalmente no portal O Povo +

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