12 de julho de 2018

Cautela e busca pelo eleitor de Lula por Érico Firmo


O modo como os pré-candidatos se posicionaram sobre o “solta não solta” envolvendo o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é das coisas mais reveladoras desta pré-campanha. Dos que pontuam nas pesquisas, poucos se colocaram de forma clara. 

Não é difícil entender por quê. Até a estrela do PT já percebeu, Lula não será candidato. Ele tem patrimônio de votos capaz de decidir a eleição. Então, os postulantes agem com cautela, de olho no melhor jeito para atrair quem hoje declara voto no petista.

Manuela D’Ávila (PCdoB) e Guilherme Boulos (Psol) não tiveram dificuldade de se posicionar. Como os mais próximos ao ex-presidente, defenderam a libertação de Lula e a decisão do desembargador Rogério Favreto.

Do outro lado, Jair Bolsonaro (PSC) também agiu conforme o esperado. Foi o de sempre. Reclamou que as instituições estão aparelhadas e saiu-se com o discurso de que corrupção é ideológica - e não tentativa de enriquecer. O pré-candidato do PSC se projetou como crítico do PT e se fortalece ao se colocar como antagonista de Lula.

Álvaro Dias, do Podemos, também foi duro contra Lula e afirmou que o habeas corpus era coisa de um “desembargador aloprado que serviu a governos petistas”. Os demais, porém, foram um tanto vagos, quando não ambíguos mesmo.

Marina Silva (Rede) disse estar preocupada — um estado de espírito, não uma posição política. Defendeu o Estado de Direito, as normas jurídicas. Ou seja, nada. O que houve de mais claro foi a posição de que a atuação de um magistrado no plantão não deveria causar turbulências nem colocar em dúvida decisões de tribunais colegiados. Traduzindo, ela criticou o habeas corpus. Ontem, ela defendeu o juiz Sérgio Moro e disse que quem o critica é a favor da impunidade.

Henrique Meirelles (MDB) — candidato de Michel Temer, mas que procura explorar a passagem pelo governo Lula — disse ser contra a politização da Justiça e defendeu respeito às normas processuais. Ontem, afirmou que a decisão das instâncias superiores devem prevalecer — ou seja, Lula deve ficar preso.

Ciro Gomes (PDT), dado a arroubos verbais, conseguiu ser ainda mais vago que Marina. Disse que a disputa de liminares é “triste”, que a crise no Judiciário aumenta a desconfiança da população, que se assusta ao ver postura em magistrados que coloca em dúvida sua isenção e cobrou que todos ponham a mão na consciência e reflitam sobre seus atos. Sempre um bom conselho, mas definitivamente não é um posicionamento político de pré-candidato a um mês da campanha.

A postura é intrigante porque Ciro, em tese, é aliado de Lula. Está de olho nos votos de Lula. Aliás, depende dos eleitores que declaram intenção de votar no petista para se viabilizar. Porém, negocia aliança com o DEM. Talvez isso explique o equilibrismo.

Ainda mais curiosa e vaga foi a postura de Geraldo Alckmin (PSDB). Disse que “manter Lula ou qualquer outro cidadão brasileiro preso não pode ser uma decisão política, mas sim da Justiça”. Contribuição inestimável ao pensamento jurídico, por certo. Disse ainda que o País precisa de ordem, segurança jurídica e cobrou que o Judiciário seja fator de equilíbrio.

Chegou-se àquele momento no qual os marqueteiros assumiram quase por completo os discursos. Não deixam passar nada que considerem que possa trazer prejuízo. Levam isso ao ponto de não se dizer verdadeiramente nada. O caso de Alckmin é emblemático. Ele é do PSDB. A essa altura, está com pudores de bater em Lula? Será expectativa de ter votos petistas? Ou cautela quanto a pedido de habeas corpus para tucanos?

Publicado originalmente no portal O Povo Online

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