11 de setembro de 2022

O machismo, a misoginia e a multidão, por Juliana Matos Brito

Vista aérea da Praça Portugal durante a manifestação pró-Bolsonaro no 7 de setembro (Foto: Aurélio Alves)

No dicionário, machismo é definido como orgulho masculino em excesso; virilidade agressiva; ideologia da supremacia do macho que nega a igualdade de direitos para homens e mulheres. É uma opressão e um julgamento de que mulheres são inferiores a homens. O que acarreta uma série de problemas como violência, assédio, estupro, desrespeitos em todas as esferas da sociedade e objetificação da mulher. Misoginia é o ódio, a aversão, o desprezo às mulheres. Machismo e misoginia são conceitos que não deveriam mais existir na prática. Mas, como existem e têm sido inclusive festejados por líderes políticos, é preciso sermos didáticos e explicarmos o prejuízo que trazem para a sociedade. O que não podemos mais é achar que é brincadeira.

O desrespeito à mulher, chancelado nas últimas ações do presidente, seja atacando uma jornalista, seja fazendo piadinhas e colocando a mulher num local de princesa e secundário, reverbera no País e autoriza esse comportamento. O que vemos, como consequência, é o aumento da violência contra a mulher. Não temos como aceitar isso. A imprensa, nesse caso, tem um papel educativo primordial para desfazer essa cultura machista e misógina.

Em editorial no fim de agosto (A misoginia como prática política), após o debate da Band, O POVO destacou: "O presidente do Brasil deve, como passo inicial, passar a respeitar as pessoas independente de sua condição de gênero, algo que lhe exigirá mudar de pensamentos e atitudes. Já passou da hora e isso não tem a ver com campanha política".

Em entrevista ao O POVO em 17 de julho sobre violência contra a mulher, a socióloga e professora Marcelle Jacinto da Silva lembrou que "dentro dessa cultura machista estrutural que a gente vive, tudo que é associado ao feminino é rejeitado, principalmente em forma de violência, porque o feminino está ali para ser dominado, então ele é inferiorizado. A masculinidade e a misoginia estão associados a esse abuso de poder".

Além desses textos, O POVO publicou ainda a série sobre violência política de gênero e também um especial sobre conservadorismo, misoginia e extremismo na cultura gamer. E sobre mulheres na ciência, acerca de competência, baixa remuneração e assédio no ambiente acadêmico. Só para lembrar alguns especiais produzidos.

Mas não basta. A herança que temos de combater é enorme. Precisamos repetir, à exaustão, que comportamentos desse tipo não são mais aceitos. Precisamos ainda ser didáticos para que a informação chegue para todos e que não sejamos mais capazes de responder com risos constrangidos a brincadeiras preconceituosas e violentas.

Cadê as imagens?

Além da forma desrespeitosa com que o presidente tratou mulheres e falou sobre sua virilidade durante o 7 de Setembro, o bicentenário da independência rendeu ao O POVO uma ampla cobertura, seja no portal, nas redes sociais ou no impresso. Muitos textos e análises sobre a data foram publicados durante a semana. Mas, no dia 7, quarta-feira, o impresso não publicou nenhum especial sobre a data, ficando restrito às factualidades e a uma excelente entrevista no caderno Vida & Arte, com o autor do podcast Projeto Querino. Recebi uma reclamação sobre isso de um leitor: "Vale olhar a capa… bicentenário estava onde?".

No dia seguinte, o impresso trouxe uma ampla cobertura sobre a data em relação aos acontecimentos em Brasília e em Fortaleza. Recebi um elogio acerca da coluna do Érico Firmo, que trazia uma análise dura sobre a atitude de Bolsonaro. "Parabéns. Perfeito", exaltou o leitor. Mas também recebi críticas em relação à nossa cobertura, a qual considero boa. Mas preciso concordar com uma das críticas: as imagens usadas. Durante todo o feriado, diversas imagens das manifestações pró-Bolsonaro foram divulgadas pelo O POVO, em seu portal e nas redes sociais, mas na edição impressa nenhuma foto mostrava o tamanho do evento. Não trouxemos nada que exibisse a quantidade de pessoas na Praça Portugal. "Folheei o jornal por diversas vezes para confirmar: nenhuma foto mostrando a quantidade de brasileiros que foram às ruas no 7 de setembro. Incrível! Por quê?", questionou o leitor.

Eu também pergunto: por qual razão? A cobertura das manifestações estava boa. Tínhamos análises e textos informativos sobre o tema. Uma foto que mostrasse o tamanho do evento em manifestações sempre é importante já que traz informação sobre o fato. Não publicar fica parecendo que não queríamos dar essa dimensão. E não precisamos disso. O Fla-Flu político já é intenso demais, não devemos dar munição para quem já critica regularmente a imprensa.

Publicado originalmente no portal O Povo Online

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