21 de setembro de 2022

Passagem de Bolsonaro pelos EUA é marcada por campanha e protestos

Antes de Bolsonaro discursar na ONU críticas contra ele foram projetadas na lateral da sede da  organização (Foto: Timothy A. Clary)

Candidato à reeleição, o presidente Jair Bolsonaro (PL) aproveitou o tempo de discurso na Assembleia-Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) para fazer campanha, a 11 dias do primeiro turno das eleições. Ele falou por 20 minutos, nos quais fez um balanço do seu governo, enfatizando a recuperação da economia, e fez um aceno às mulheres, ao citar a primeira-dama Michelle Bolsonaro. Sem mencionar o nome do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), líder das pesquisas de intenção de voto, lembrou escândalos na Petrobras. E sustentou que o Brasil é exemplo de preservação ambiental.

Bolsonaro afirmou que seu governo "extirpou a corrupção sistêmica no país". "Somente entre o período de 2003 e 2015, onde a esquerda presidiu o Brasil, o endividamento da Petrobras por má gestão, loteamento político e desvios chegou à casa dos US$ 170 bilhões", frisou, sem mencionar denúncias envolvendo sua família e ex-ministros, como o da Educação Milton Ribeiro.

Sobre a pandemia da covid-19, alegou que seu governo "não poupou esforços para salvar vidas e preservar empregos", mesmo tendo atrasado e desencorajado a vacinação e o uso de máscaras no auge da doença, que vitimou mais de 685 mil brasileiros.

Com foco no público feminino, no qual sofre forte rejeição, disse se empenhar para que o Brasil tenha "mulheres fortes e independentes, para que possam chegar aonde quiserem". Ele destacou o trabalho voluntário de Michelle, com especial atenção aos portadores de deficiências e de doenças raras. Afirmou, também, ter sancionado mais de 70 leis voltadas às mulheres. "É a prova cabal desse compromisso", acrescentou.

Na área econômica, Bolsonaro ressaltou que, apesar da crise mundial, "o Brasil chega ao final de 2022 com uma economia em plena recuperação", acrescentando "emprego em alta e inflação em baixa". A queda do preço dos combustíveis e da energia elétrica foi citada. "A economia voltou a crescer. A pobreza aumentou em todo o mundo sob o impacto da pandemia. No Brasil, ela já começou a cair de forma acentuada." A declaração vai de encontro ao mais recente levantamento sobre o tema, o 2º Inquérito Nacional sobre Insegurança Alimentar no Contexto da Pandemia da Covid-19 no Brasil, elaborado pela Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional). O documento mostrou que 33 milhões de pessoas passam fome no país, mais do que há 30 anos, em um retrocesso das políticas de proteção social.

Bolsonaro também disse que o Brasil é referência em preservação das florestas. "Em matéria de meio ambiente e desenvolvimento sustentável, o Brasil é parte da solução e referência para o mundo. Dois terços de todo o território brasileiro permanecem com vegetação nativa, que se encontra exatamente como estava quando o Brasil foi descoberto, em 1500", garantiu. "Na Amazônia brasileira, área equivalente à Europa Ocidental, mais de 80% da floresta continua intocada, ao contrário do que é divulgado pela grande mídia nacional e internacional."

A respeito da guerra no Leste Europeu, o presidente se disse contra sanções econômicas impostas à Rússia em meio ao embate com a Ucrânia. Afirmou que "o Brasil tem se pautado pelos princípios do Direito Internacional e da Carta da ONU" e que defende "um cessar-fogo imediato" e "a manutenção de todos os canais de diálogo entre as partes em conflito". "Apoiamos todos os esforços para reduzir os impactos econômicos desta crise. Mas não acreditamos que o melhor caminho seja a adoção de sanções unilaterais e seletivas, contrárias ao Direito Internacional."

O chefe do Executivo ainda se disse defensor incondicional da liberdade de expressão e reforçou ser contrário ao aborto e à ideologia de gênero. Ao finalizar o discurso, citou os atos cívico-militares ocorridos no 7 de Setembro em todo o Brasil. Segundo ele, milhões de brasileiros foram às ruas na "maior demonstração cívica da história do país". E terminou citando o slogan "Deus, pátria, família e liberdade", que tem usado em suas campanhas.

O diplomata e professor Paulo Roberto de Almeida disse não acreditar que as declarações de Bolsonaro se refletirão em ganhos eleitorais. "Não creio que o discurso dele possa colaborar com a campanha no Brasil. Ele atuou de forma ilegítima, indecente até, ao usar uma tribuna internacional para atacar um adversário político doméstico. Não é um tema que possa ser incluído na agenda internacional. Foi um discurso inadequado, indevido, uma vez que ele mencionou Michelle como patrocinadora de valores", avaliou.

Ricardo Mendes, sócio da Prospectiva e responsável pelas operações internacionais da consultoria, observou que o discurso foi semelhante a uma despedida, de quem está deixando o governo e quer enfatizar sua marca. "Acho que não há impacto para o país. Não tem nada de agenda construtiva no discurso. Não tem tópicos para serem construídos. Os impactos eleitorais são pequenos ou nulos", disse.

O cientista político Rodrigo Prando, professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie, destacou que, anualmente, ao ocupar a tribuna da ONU, Bolsonaro tenta "destacar o que tem de positivo em seu governo, omitir o negativo e construir uma narrativa, uma fábrica de fantasias".

"Tem de fato o elemento positivo que é a melhora da economia. Mas sobre os temas do meio ambiente, ele fala de matas preservadas, mas não entra na questão do aumento do desmatamento e de queimadas. O Brasil preserva, mas a questão é quanto deixa de preservar durante seu governo. Esse é um calcanhar de aquiles para ele no cenário internacional", frisou. 

"O discurso do presidente, na maioria das vezes, se adéqua ao público fiel dele. Portanto, discursa para convertidos, uma plateia que já concorda com suas ações. Em termos eleitorais, o discurso dele é nulo".

Horas antes de o presidente Jair Bolsonaro (PL) discursar na Assembleia-Geral das Nações Unidas, ontem, críticas contra ele foram projetadas na lateral da sede da ONU, em Nova York, nos Estados Unidos.

A intervenção, que foi organizada pelo U.S. Network for Democracy in Brazil, chamou o presidente de "Brazilian shame" ("vergonha brasileira", em tradução livre), além de "mentiroso" e "desgraça".

Segundo a organização, a projeção foi feita em contraponto ao discurso do candidato à reeleição. "Se Bolsonaro vai usar o prédio da ONU como palanque, nós vamos usá-lo para denunciar esse homem que é uma verdadeira vergonha nacional", justificou a U.S. Network for Democracy in Brazil. O termo "Bolsonaro vergonha mundial" ainda entrou para os trending topics do Twitter.

Também houve projeção de mensagens críticas a Bolsonaro no Empire State Building, um dos cartões-postais de Nova York. Ganharam destaque no edifício a palavra "Broxonaro", numa alusão à declaração do presidente de que "imbrochável"; e a frase "tchutchuca do Centrão", repetição da fala de um youtuber contra o chefe do Executivo pela aliança que ele fez com o grupo de partidos políticos para aprovar, no Congresso, pautas de interesse do governo.

As campanhas dos candidatos à Presidência Ciro Gomes (PDT) e Soraya Thronicke (União Brasil) pediram ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) que proíba Bolsonaro de usar em sua campanha imagens do discurso que ele fez na Assembleia-Geral das Nações Unidas (ONU). Também solicitam que o presidente seja investigado por abuso de poder político e econômico.

O motivo é possível favorecimento da campanha de Bolsonaro pelo uso de aparato estatal para promover sua candidatura, ferindo a isonomia entre candidatos.

As duas campanhas também foram ao TSE para pedir a proibição da divulgação do discurso de Bolsonaro a apoiadores na sacada da embaixada brasileira em Londres. Bolsonaro foi ao Reino Unido no último fim de semana para participar do funeral da rainha Elizabeth II. O ministro Benedito Gonçalves concedeu uma liminar na última segunda-feira, determinando a exclusão de conteúdos já publicados nesse contexto.

Com informações portal Correio Braziliense

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