20 de setembro de 2026

A eleição do silêncio nas ruas e do barulho nas redes, por Guálter George

Lula e Flávio Bolsonaro devem intensificar os movimentos de rua na reta final da campanha (Foto: Reprodução/BA/Redes Sociais)

É estranha, chega a ser esquisita, a frieza das ruas em meio à campanha eleitoral em curso, que levará à escolha do próximo presidente da República, dos governadores estaduais e da renovação dos colegiados nas Assembleias Legislativas, da totalidade da Câmara dos Deputados e de dois terços do Senado. A gente circula pelas cidades e, em várias situações, quase que não percebe que em duas semanas estaremos todos indo às urnas para fazer as escolhas acima, de tanta importância para o que nos espera em termos de estruturas públicas de poder.

Parece natural imaginar que, fruto dos instrumentos modernos que movimentam hoje o processo eleitoral, parte do entusiasmo que antes dizia respeito à disputa física pelo eleitor esteja transferida para o ambiente virtual das redes sociais. Portanto, o resultado disso teria que ser um esfriamento geral do que é visível, o que acaba sendo até uma boa notícia já que como efeito principal o nível de poluição - visual, sonora etc - se reduz de maneira drástica. É um problema que não sumiu, claro, mas que parece bem menor aos nossos olhos neste 2026.

Cabe discutir, feita a constatação, o aspecto de ganhos e perdas dessa realidade entre os candidatos naquilo que a eles interessa, que é a conquista do voto. Olhando para a disputa presidencial concentrada agora entre Lula e Flávio Bolsonaro ou para a briga pelo governo cearense, que tem Elmano de Freitas e Ciro Gomes no bloco de favoritos, a quem deve interessar essa calmaria das ruas? Na verdade, a pergunta inicial é se ela interessa a alguém.

Não há resposta pronta, mas uma análise mais profunda sobre como as peças se movimentam no jogo das eleições é possível dizer que em ambos os casos, considerando que Ciro aqui no Ceará tem o apoio do bolsonarismo e com isso obtém proveito dos seus métodos preferenciais, a transferência de parte da tensão da disputa para o mundo das redes sociais coloca o petismo e os petistas em desvantagem.

Parece notório que há no segmento de direita maior domínio das linguagens próprias ao ambiente virtual, o que se transforma em capacidade mais objetiva de tirar proveito da potencialidade que oferece. No bom e, em especial, no mau sentido.

É perceptível que um dos impulsionadores do movimento bolsonarista no País tem sido a participação com destaque de figuras que entendem a dinâmica própria da comunicação virtual, o que lhes dá uma vantagem natural quando o debate eleitoral se desloca das ruas para as redes. As esquerdas e o PT, por sua vez, ainda parecem muito presas a uma maneira de fazer política eleitoral que depende muito da mobilização física de gente, algo que segue importante para o êxito de uma candidatura, mas já não basta como estratégia de impulsionamento de um nome. Por mais que seja ele, como no caso do presidente Lula, hoje buscando uma nova reeleição, alguém já testado suficientemente nas urnas.

De volta à aparente indiferença de quem circula por nossas ruas e avenidas com o momento eleitoral, contrastando com a efervescência do mundo fantástico e quase incontrolável das redes sociais, ela pode inclusive representar um sinal de amadurecimento cidadão do brasileiro. Afinal, deve interessar a todos que os espaços urbanos de uso comum sofram menos o efeito ruim do período representado pela "sujeira" na divulgação de candidaturas, com menos poluição visual e, quem sabe, menos pressão sobre o eleitor para que ele faça sua escolha sem estímulos que acabam atrapalhando sua rotina. As cidades, e quem mora nelas, agradecem.

Os debates do O POVO

O Grupo de Comunicação O POVO promoverá dois debates entre candidatos majoritários na semana que hoje começa. Na quarta-feira, dia 23, será a vez dos que disputam o Governo do Ceará, prevendo-se que participem os dois que a lei obriga presença. No caso, Ciro Gomes (PSDB) e Elmano de Freitas (PT). Na quinta, 24, será vez de Alcides Fernandes (PL), Capitão Wagner (União Brasil), Cid Gomes (PSB) e Luizianne Lins (Rede), postulantes às duas vagas ao Senado e convidados de acordo com a representatividade dos partidos políticos e como referência à soma dos deputados federais e senadores eleitos para as respectivas Casas. Os encontros, que tiveram todas as regras acertadas com as assessorias dos candidatos, acontecem na OAB-CE, no bairro Edson Queiroz, em Fortaleza, a partir de 19 horas. O momento é estratégico para as campanhas, penúltima semana do calendário eleitoral de um primeiro turno que terá seu desfecho em 4 de outubro.

O Datafolha, para Cid e para Elmano

Coordenador geral da campanha à reeleição do governador Elmano de Freitas (PT), Chagas Vieira admitiu à coluna, com os números ainda quentes, da pesquisa Datafolha, que a expectativa era de performance melhor do candidato. "Confesso que esperávamos um empate ou, até, o Elmano na frente", disse, valendo-se dos relatórios diários que recebe das duas pesquisas internas, de institutos diferentes, nos quais o petista apareceria liderando a disputa contra Ciro Gomes há cerca de uma semana. "A gente não contrata pesquisa para se enganar", justifica, "mas para traçar estratégias, o que exige um retrato fiel e confiável". A ordem, diz ele, "é ir pra frente, até porque tem pesquisa pra todo gosto, inclusive uma, também de hoje (sexta-feira) aponta a gente liderando com 5 pontos de diferença". Referia-se à Real Big Data, que, de fato, apresentou algo nesse sentido.

No lado da campanha de Ciro Gomes (PSDB), o coordenador de comunicação, Denísio Pinheiro, diz que a ordem do candidato é clara: "pé no chão e humildade, a despeito do que as pesquisas indiquem positivamente". Segundo ele, o ritmo da campanha seguirá intenso, como tem sido, à média de dois municípios visitados por dia, chegando-se a três quando as circunstâncias permitem. O jornalista admite que há uma atenção levemente especial com o Interior, sem abandonar as estratégias traçadas para Fortaleza e seu entorno. Para ontem, inclusive, estava prevista uma carreata percorrendo vários municípios da Serra da Ibiapaba e, à noite, comício em Camocim com a presença rara do ex-senador Tasso Jereissati. Hoje, domingo, a caravana cirista programa um grande ato em Barbalha, na região do Cariri, que, vale lembrar, é a terra do senador petista Camilo Santana, alvo predileto do candidato tucano nas suas críticas à situação atual do Ceará. Mais até, em muitos momentos, do que o próprio Elmano.


A política na horizontal

Elmano de Freitas deu um tempo da condição de governador e de candidato à reeleição quando, na noite da última quarta-feira, participava de carreata em Baturité, sua cidade natal, e parou o veículo no qual estava para correr até uma casa da rua 7 de Setembro, onde uma senhora acompanhava o movimento, calada e tranquila. Era dona Elma, mãe dele, em direção a quem correu, pediu a bênção, deu um beijo rápido e voltou correndo para a confusão, deixando-o à porta ao lado de uma neta, que é filha dele. Nem tudo é política numa campanha eleitoral.

Moses Rodrigues, segundo os planos dele próprio, quer sair da eleição de 2026 como um dos maiores vencedores, independente do que acontecer em relação à disputa pelo governo do Ceará, na qual apoia a reeleição do governador Elmano de Freitas. Um dos objetivos centrais de sua estratégia é eleger Moses Filho, cujo nome fala por si, como deputado estadual, inclusive com uma campanha que tem chamado atenção na Região Metropolitana de Fortaleza. A base do grupo, porém, segue sendo a região Norte, em especial o influente município de Sobral, que tem como prefeito o pai de um e avô do outro, Oscar Rodrigues.

Ciro Gomes surpreendeu com o vídeo que circulou fartamente nos últimos dias no qual aparece ao lado de André Fernandes, do PL, pedindo votos para ele como candidato à Câmara Federal. Sugerindo inclusive, que seria seu desejo pessoal vê-lo - o bolsonarista mais bolsonarista que temos no Ceará, muito provavelmente - superando-o como o mais votado da história do Ceará em disputas proporcionais. Lembrando: Ciro, à época no PDT, teve 667 mil votos em 2026, número extraordinário até hoje, o que significa que o desafio colocado para o deputado federal em sua campanha pela reeleição não é dos mais fáceis.

Publicado originalmente no portal O Povo +

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