1 de setembro de 2018

A eleição sem Lula por Érico Firmo


No momento em que esta coluna era escrita, estava consolidada a maioria no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) contra a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Nenhuma surpresa, mas demarca ao menos o fim de uma indefinição. 

Há perspectiva de o PT fazer novos recursos. Mas fica ainda mais clara a sinalização de que o candidato passa a ser Fernando Haddad (PT). Isso no dia em que ele estava em Fortaleza.

As próximas pesquisas se tornam decisivas. Deixam de ser simulações. Uma coisa é pesquisa com vários cenários possíveis. Bem diferente é quando está definido um rumo.

Confirmado candidato, o ex-prefeito de São Paulo tende a crescer. A dúvida é quanto. Passará a ter espaço nos debates futuros e nas sabatinas. Também fica interrogação sobre o potencial de atração de votos de Ciro Gomes (PDT) e Marina Silva (Rede).

Outra dúvida é no Ceará, sobre Camilo Santana (PT). Ele vinha se equilibrando entre Lula e Ciro Gomes (PDT). Ontem, recebeu Haddad. Mas terá o ex-prefeito paulistano a mesma capacidade de Lula de neutralizar o envolvimento de Camilo na campanha?

A disputa pelos votos do Nordeste

Fortaleza foi ontem a capital da campanha presidencial. A Aguanambi 282 em particular. Pouco antes da 11h30min, Fernando Haddad (PT) chegou à sede do O POVO, logo após deixar o aeroporto. Cerca de três horas depois, foi a vez de Geraldo Alckmin (PSDB) ser recebido. Os candidatos de PT e PSDB tiveram no O POVO seus primeiros compromissos no Ceará.

O Nordeste é a região mais estratégica nesta campanha. Não só nesta, a rigor. Desde 1989, quem venceu na região foi eleito presidente. Trata-se do segundo maior colégio eleitoral do Brasil. São 39 milhões de eleitores. Mais de um em cada quatro pessoas com direito a voto no Brasil estão na região. É mais que a soma de todos os eleitores do Sul e do Centro-Oeste. A particularidade desse ano está em Lula.

O ex-presidente e candidato indicado pelo PT tem 59% das intenções de voto na região. O perseguidor mais próximo é Jair Bolsonaro (PSL), que tem 11%. Diferença de 48%. Daria praticamente para ganhar no primeiro turno só com a diferença de votos. Sem Lula na disputa, pelo último Datafolha, Marina Silva (Rede) vai a 19% na região. Bolsonaro e Ciro Gomes (PDT) empatam com 14%. A soma de brancos, nulos e indecisos é 34%. Sem Lula, são muitos votos em aberto na região. Em lugar nenhum há tantos eleitores por conquistar.

Dentro da particularidade que é o Nordeste, o Ceará é mais específico ainda. É o Estado de Ciro Gomes (PDT), que tem força descomunal no quadro sem Lula. É também terra de Tasso Jereissati (PSDB), que já foi o político mais poderoso do Estado e ainda tem enorme força - embora não tenha transferido para seus candidatos até agora. Foi nessa realidade que Alckmin e Haddad vieram buscar votos.

O desafio de Haddad

Com Lula fora, Haddad tem desafio de conseguir que o ex-presidente transfira votos para ele. Ele tem convicção de que vai crescer. Quanto, segundo ele, é impossível projetar. Até por não haver precedente nessa situação - talvez no mundo. Uma coisa sobre a qual não há dúvida é a diferença na capacidade de comunicação entre Lula e Haddad com a população sertaneja.

No Ceará, precisou de esforço extra para não melindrar os Ferreira Gomes.

Publicado originalmente no portal O Povo Online

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