10 de setembro de 2018

Com menos recursos, campanha tem pouca presença nas ruas


Com menos recursos, a campanha eleitoral deste ano parece ter dificuldades para se firmar nas ruas do Estado. Um dos sintomas é o esvaziamento de cruzamentos que historicamente concentravam bandeiraços e adesivaços, alguns inclusive eram palco de atos simultâneos de candidaturas opostas. Carros de som com jingles de candidatos também não têm a mesma presença de eleições passadas.

Em 27 dias, os cearenses irão às urnas para votar em presidente, governador, senador e deputado estadual e federal. A contagem regressiva para o primeiro turno parece não empolgar os eleitores.

Na avaliação da cientista política Carla Michele, esse "silenciamento" das ruas no período eleitoral é efeito da nova realidade financeira dos partidos. Desde 2016, quando passou a ser inconstitucional a doação de empresas para financiamento eleitoral, as siglas têm feito campanhas mais simplificadas. Poucos candidatos optaram por fazer a campanha tradicional.

Pelas novas regras, o recurso usado nas campanhas pode vir por doação de pessoa física, arrecadação coletiva na internet, popularmente conhecida como "vaquinha virtual", e pelo Fundo Especial de Financiamento de Campanha (FEFC).

Para 2018, foi disponibilizado pelo Tesouro Nacional ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) cerca de R$ 1,7 bilhão para ser dividido entre os diretórios nacionais das siglas. Na prática, os partidos realizam uma campanha com recursos limitados.

Para Carla Michele, as mudanças trouxeram pontos positivos e negativos. Ela destaca que as doações empresariais representavam uma "grande fantasia", visto que as instituições disponibilizavam recursos em troca de favorecimento pelos parlamentares. 

"Nós temos o grande exemplo da Odebrecht, o grupo J&F; e tantas outras grandes empresas que custearam campanhas e depois utilizaram para benefício próprio".

Por outro lado, a cientista política diz que é preciso gerar uma condição mínima de igualdade entre as diversas candidaturas, pois este novo modelo reforça os políticos que têm mais recursos, além de reduzir o espaço de siglas menores.

 O postulante ao cargo de governador do Estado pelo Psol, Ailton Lopes, afirma que existe uma desproporção muito grande entre os concorrentes. "Quando há uma campanha com 100 vezes mais recursos que outra, isso não é democrático, você não está possibilitando igualdade de condições entre as propostas que estão em disputa no processo eleitoral", ressalta o candidato, acrescentando que isso é prejudicial ao eleitor.

Com tempo de propaganda e recursos reduzidos, os candidatos têm apostado na internet para alcançar o eleitor. De acordo com candidato a deputado estadual pelo PT, Guilherme Sampaio, as redes sociais se configuram como meio mais eficaz e acessível para dialogar com a população.

Em contrapartida, o cientista político e professor universitário Francisco Moreira, alerta que as redes sociais têm características que não agregam muito no sentido de mobilização. Ele ressalta que grande número de seguidores e bom engajamento não se traduzem necessariamente em votos, já que a internet possibilita a ação de robôs e perfis fakes.

Além disso, Francisco Moreira destaca o nível de desconfiança nas redes sociais devido à onda de fake news que coloca em dúvida a veracidade das informações que são repassadas.

Carla Michele aponta que o "desinteresse" da população pelas eleições pode ser explicado por uma "crise" no modelo representativo, que não consegue atender às necessidades da população. 

"Isso não é uma exclusividade desse momento, nem tampouco da nossa sociedade", completa. Ela cita os inúmeros escândalos envolvendo os parlamentares, o que gera um "silenciamento" e "ausência" de participação dos votantes.

Além disso, Carla Michele ressalta que a falta de candidaturas competitivas no Estado, pode "desanimar" os cearenses. Ela destaca que o atual governador e candidato à reeleição, Camilo Santana (PT), conseguiu reunir um amplo conjunto de alianças e isso pode gerar uma sensação de "já ganhou".

Com informações portal O Povo Online

Leia também: