16 de outubro de 2026

A receita de Camilo para virada de Lula, por Henrique Araújo

Lula passou a adotar parte da agenda de campanha do governador Elmano de Freitas e do senador Camilo Santana (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

A nove dias da votação, o presidente Lula passou a adotar parte da agenda de campanha do governador Elmano de Freitas e do senador Camilo Santana, ambos do PT. Exemplo disso é o endurecimento no discurso contra a criminalidade, uma das marcas do pleito local, e o anúncio de tarifa zero no transporte público nos fins de semana - a medida foi apresentada pelo chefe do Abolição na reta final da corrida contra Ciro Gomes (PSDB).

Atrás de Flávio Bolsonaro (PL) no placar até aqui, Lula vem recorrendo à expertise do grupo do Nordeste para contornar o quadro de dificuldades na tentativa de se reeleger, ainda que, para tanto, tenha de enfrentar resistência interna no PT. Foi o caso da proposta de emenda que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos para crimes hediondos, de autoria de Camilo e protocolada ontem no Senado em meio ao debate sobre a PEC da segurança pública.

Afastado das alas históricas do petismo (tradicionalmente refratárias a medidas do tipo), o ex-ministro encampou a alteração constitucional com um olho político no presente, fazendo frente a investidas da oposição bolsonarista; e no futuro, uma vez que pavimenta o caminho para que novas lideranças explorem temas hoje monopolizados pelo campo da direita extremada.

Pragmático e sem compromisso com esse ideário de um PT da "velha guarda", Camilo, cujo protagonismo nacional encara seu primeiro grande teste de fogo, procura se firmar exatamente numa zona de vulnerabilidade do governo Lula: a segurança.

A nova agenda

Não é casual que, no mesmo dia em que o ex-titular do MEC propôs mudança na Constituição para diminuir o patamar da maioridade - cedendo a um clamor de políticos punitivistas -, Elmano tenha, durante entrevista, criticado a sanção de apenas três anos para adolescentes infratores, segundo entendi.

Essa reorientação de discurso na esquerda é particularmente forte em governos do PT na região Nordeste, sobretudo Bahia e Ceará, onde o projeto estadual de enfrentamento ao crime se estrutura em torno de ações ostensivas, a exemplo da compra de armamento e reforço da tropa, aumento de contingente e largo uso de uma retórica que não deixa nada a dever a um lema já conhecido (e contra o qual o PT costumava se opor): "bandido bom é bandido morto".

Crise à vista

É nesse pano de fundo que começam a se esboçar gestos de desagrado dentro do PT ante uma plataforma que, se em tese neutralizaria as armas de Flávio na disputa pelo Planalto por um lado, por outro arrastaria a legenda para um debate não nos termos do petismo, mas nos da direita, cuja gramática é vencedora já de algum tempo.

Esse choque provoca uma crise de identidade entre o PT "vermelho", mas envelhecido na sua maquinaria eleitoral e no domínio de ferramentas da nova lógica de rede; e o novo PT dos "camisas brancas", responsáveis por arejar o partido, mas ainda por esvaziar simbologias da agremiação.

A pesquisa

A nova rodada do Datafolha (51% a 49% para Flávio contra Lula) mostrou que, desde 4 de outubro, o nome do PL não capitalizou a vantagem construída no primeiro turno. Pelo contrário, o "zero-um" está nas cordas há mais de uma semana, ora tendo de se explicar sobre Daniel Vorcaro, ora sobre falta de compromisso em assegurar benefícios sociais criados nos governos do concorrente.

Em resumo: a maré é favorável ao petista, que tem sabido explorar o momento, mas também produzi-lo, como revelam o pacote de medidas anunciadas às vésperas da eleição e a fecunda dobradinha com os presidentes da Câmara e do Senado - num momento em que a parceria com o Supremo fez água.

Publicado originalmente no portal O Povo +

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