24 de maio de 2015

O homem por trás do desenho

Desenho da capa da página de Ricardo Sousa na rede social Facebook 
Sem capa e sem superpoderes, Ricardo “de Netinha” Sousa rabisca, colore e conta histórias humanas do cotidiano paulista e altaneirense. Há mais de quatro anos ele participa da vida política de Altaneira com suas análises originais em charges nos grupos virtuais dedicados à cidade. Apimentadas, aguçadas e certeiras, suas charges, a partir desse ano, ganham publicação fixa no Blog de Altaneira.


Filhos de migrantes cearenses, Ricardo nasceu em São Paulo em 1977. Aos seis anos, pegou o caminho inverso e voltou com sua mãe para o sítio Samambaia, distrito de Altaneira, no sul do Ceará. Sua infância foi no meio do mato, na terra batida, fantasiando o Sítio do Pica-Pau Amarelo como a casa de seus avós. Entre idas e vindas de Altaneira para Samambaia, o desenho já aparecia em forma de cartas dedicadas à sua avó, Maria Madalena. Seus “rabiscos rupestres”, ele diz, “talvez fossem tentativas de mostrar que eu queria me comunicar de alguma forma”.

A necessidade de comunicação parece ser um dispositivo motivador dentro de Ricardo que o levou a ser ator, desenhista, chargista e ilustrador. Além da carreira de 14 anos no Teatro, passou os últimos três anos também investindo profissionalmente no desenho. Com dois projetos de desenho para HQs internacionais e publicações diárias em sua página pessoal, o chargista de Altaneira ainda consegue acompanhar atento a política e os desdobramentos curiosos dessa cidade.

Assiste e participa pela sua janela virtual, responsável por levá-lo de São Paulo até as altas terras caririenses – de onde partiu aos 13 anos, em 1990, para voltar à selva de pedra. Logo o jovem Ricardo precisou encarar a realidade de onde estava: não era mais o sítio do Pica-Pau Amarelo, nem o cenário de suas fantasias e brincadeiras de criança. Agora, o cimento, a velocidade e o relógio transformam seu olhar e, felizmente, lhe trouxe uma visão de contemplação do humano e participação social.

Foi ajudante geral em algumas fábricas e office boy da Arquidiocese para sobreviver. Contou os minutos até largar tudo e viver do que realmente gostava de fazer. O teatro, seu primeiro amor, passou a ser sua profissão e ganha-pão dos anos 2000 até a data de hoje, trabalhando com projetos educacionais de arte e intervenções voltadas para o teatro infantil.

No meio tempo, sua mão insistia em desenhar os traços do cotidiano em papéis avulsos. Cenas urbanas comuns despercebidas aos olhos ligeiros, a solidão das capitais, a memória coletiva gravada em prédios aos pedaços. Imaginou e engavetou diversos projetos para um futuro próximo. “Minhas inspirações parte de desenhistas que faziam histórias ‘humanas’, nada de ‘super seres’ e suas capas esvoaçantes”, revela, explicando que o foco em ações, contradições, pensamentos e mazelas da vida humana hoje lhe interessa mais do que a fantasia.

E foi assim, olhando para os fatos do cotidiano, que nasceu as charges sobre Altaneira. Ainda na época em que o Orkut era a moda e o iPhone coisa de gringo, Ricardo publicou sua primeira charge, na época, sobre o escândalo de sexo na Câmara dos Vereadores. 

Da política do dia-a-dia, dos “causos” e dos problemas sociais que Altaneira enfrenta, Ricardo põe em ação toda sua capacidade de síntese para criar, com uma pitada de humor, um pouco de acidez e o suficiente de crítica, desenhos que reverberam nos grupos online, nas mesas de bar e nas conversas de esquina.

Ricardo revela que seu processo de criação tem por base procurar entender ao máximo o assunto tratado. Como estou longe tenho que ficar atento aos mínimos detalhes do que está acontecendo nas redes sociais, já que as charges têm o foco no cotidiano de Altaneira”, explica estar ativo e atento às discussões dos principais grupos sociais e políticos da cidade, movimentada por quase 3.000 membros – metade do número populacional.

Entre seus assuntos mais comentados estão momentos da vida política e econômica municipal, as tramas entre grupos políticos, questões de interesse da comunidade geral e fatos intrigantes do cotidiano.

Sobre a intrínseca discussão da liberdade de expressão e da responsabilidade social, Ricardo declara “Já me censurei”, expondo que busca e prefere criar uma peça que seja bem humorada e faça refletir, do que exagerar na sátira e diretamente ‘enfiar o dedo na ferida’ a fim de ofender alguém. “Mas charge é um tiro só: ou você acerta ou erra”, completa.