20 de março de 2018

Propagação de fake news tende a se ampliar no período eleitoral


O poder de disseminar notícias falsas pelas redes sociais ficou exposto, nos últimos dias, pelo caso envolvendo a vereadora Marielle Franco, do Psol-RJ. As motivações, de acordo com especialistas ouvidos pelo jornal O POVO, tem viés político e acende debate sobre o poder de alastramento das fake news durante o período eleitoral.

A prática não é de agora. Pesquisa da Diretoria de Análise de Políticas Públicas da FGV, publicada em agosto do ano passado, mapeou o uso de perfis falsos especializados em disseminar informações mentirosas e incendiar as discussões na rede. A prática motivou pelo menos 10% das discussões políticas nas eleições de 2014.

O estudo mostrou que o artifício também foi replicado em outros eventos como o impeachment da presidenta Dilma, nas eleições municipais em 2016 e nas votações da reforma trabalhista, sem distinção do campo político. A conclusão do estudo é que a estratégia pode, sim, direcionar as inclinações do futuro.

Para o professor Pablo Ortellano, coordenador do Monitor do Debate Político no Meio Digital (USP), o uso da estratégia está ligado à polarização do debate político, tanto na produção quanto na propagação das notícias falsas. Ele explica que, nesse contexto, a rede vira um espaço de combate e as informações, ainda que mentirosas, são usadas nessa disputa. “A sociedade está muito apaixonada e começa a difundir informações de combate”, afirma. “Nas eleições, o fenômeno se acentua”, explica.

Já se antecipando, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) formou grupo de trabalho para discutir formas de combate às fake news em janeiro deste ano. Representantes do Minsitério Público Federal e da Polícia Federal participam das atividades. O tema também chegou no Congresso Nacional com projetos de lei que, entre outras finalidades, pretende criminalizar a criação e a difusão de conteúdos falsos na internet. As matérias também visam responsabilizar as plataformas de disseminação, como o Facebook e o Twitter, caso não retirem as postagens do ar.

Na avaliação de Ortellano, as iniciativas não podem contribuir para a solução. O especialista não acredita que a prática diminua ante das punições mais graves. Ele justifica dizendo que é difícil acompanhar e apurar todos os casos e que a criminalização poderá levar a abusos e censura na rede.

“Não vejo solução a curto prazo. Tem uma parcela de estudiosos do tema que aposta na abordagem educativa dos usuários e na transparência dos sites de compartilhamento (Facebook, Twitter, etc). Mas isso só dá resultado com tempo”, direciona.

Renato Torres de Abreu Neto, presidente da Comissão de Direito da Tecnologia da Informação da OAB-CE, discorda. Segundo ele, a falha está na legislação e defende a criação de lei específica para punição dos casos, além da ampliação de mecanismos de denúncia envolvendo o Ministério Público Estadual e Federal. “Falta consciência das pessoas. Elas acham que o fato de estar replicando uma informação ela não tem nada a ver com isso. Não é assim”, considera.

O advogado, no entanto, concorda com o professor quando defende que, aliada à ampliação de mecanismos de denúncia e combate da prática, é preciso ampliar a discussão na sociedade. “O ideal seria campanhas mais incisivas do governo contra as fake news. A gente vê esse movimento agora por conta das eleições, mas precisa de mais”, opina.

Com informações portal O Povo Online