30 de março de 2018

“Se me calarem, vocês serão minha voz”, diz Lula no fim de caravana

Cerca de cinco mil pessoas foram ouvir Lula no encerramento da caravana em Curitiba (Foto: Divulgação)
Nem a chuva intermitente que caiu sobre Curitiba foi capaz de afastar os 5 mil cidadãos que se espremeram nos arcos da centenária Universidade Federal do Paraná (UFPR). Era a última etapa da caravana do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva pelos estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná. O ato, na noite da quarta-feira 28, já estava marcado, mas ganhou um novo tom após o ataque a tiros sofrido pela caravana na noite anterior.

A caravana, após dois ônibus serem alvejados por armas de fogo na rodovia entre Quedas do Iguaçu e Laranjeiras do Sul, foi a Curitiba. A estratégia montada pelo MBL para impedir a chegada do ex-presidente não funcionou. Lula e comitiva chegaram de madrugada. A fala do ex-presidente estava marcada para às 17 horas.

Na praça Santos Andrade, os oradores se revezavam para esperar Lula. Estavam presentes deputados, senadores, lideranças sindicais, de movimentos sociais, a ex-presidenta Dilma Rousseff e os pré-candidatos à presidência da República, Manuela D´Ávila, do PC do B e Guilherme Boulos, do PSOL.

Manuela defendeu o direito de Lula ser candidato. “Nesse momento, não podemos nos dividir no que é fundamental. A luta é contra o golpe. Defender Lula e sua candidatura não é uma tarefa apenas do PT, mas de todos nós”, afirmou.

Boulos foi mais enfático. Acusou Bolsonaro como responsável por toda a onda de violência, “pelo fascismo” que se alastra pelo País. Defendeu Lula e afirmou que as “diferenças pontuais entre as candidaturas de esquerda não vão nos impedir de sentar à mesa para defender a democracia”.

Dirigindo-se a Lula e Manuela, Boulos afirmou que “já passou a hora da gente sentar para discutir a formação de uma frente democrática a fim de enfrentarmos o fascismo”. Para ele, não se conversa com fascistas para negociar. “O fascismo se combate e para tanto é preciso unidade” afirmou.

João Pedro Stédile, líder do Movimento dos Trabalhadores Sem-Terra, conclamou a militância a não permitir “que a burguesia prenda o Lula. ” Disse que é preciso sair às ruas para denunciar “os golpistas”. Sugeriu que “cada militante “saia de casa com spray na bolsa para pintar os muros e denunciar os escândalos e as mentiras. Para ele, a eleição a presidente da República será “uma luta de classes, não pelo confronto, mas para decidir um projeto de governo para o Brasil”. Terminou sua fala com a frase “Lula inocente. Lula presidente”.

O senador paranaense, Roberto Requião, PMDB, criticou o projeto econômico do seu partido. Falou a falência dos modelos neoliberais na Europa e citou a Grécia como exemplo. “Como esse modelo faliu por lá, eles resolveram implementar no Brasil”. Defendeu a candidatura de Lula e afirmou que ninguém poderá impedir essa vontade popular. “Há uma verdade absoluta: é impossível encarcerar a esperança de um povo. Eu quero votar no Lula para presidente”.

Lula começou a falar quando já passava das 21 horas. Fez uma retrospectiva de toda a caminhada que se iniciou em Bagé (RS). Falou da violência, dos ataques sórdidos e culpou a imprensa por toda essa situação. “O culpado por esse ódio no Brasil, quem estimulou a violência no País é a Rede Globo de Televisão”.

O ex-presidente acusou a Globo de estar por trás das mentiras propagadas pela série O Mecanismo, da Netflix, inspirada na Operação Lava Jato. “Há cerca de seis meses fui informado que a Globo preparava um documentário. Agora, ela usa a Netflix para disseminar a mentira”. Afirmou que vai processar os culpados, no Brasil, nos Estados Unidos e na Europa. “Não posso aceitar essas mentiras”.

Apesar das críticas, Lula lembrou que quanto “mais eles falam e batem em mim, mas eu cresço nas pesquisas”. Disse de sua disposição e vontade em ser candidato a presidente da República para devolver ao povo os direitos e benefícios mais elementares que foram retirados pelo governo Temer.

Lula reiterou sua inocência nos processos em que é acusado. “Não tenho nada contra a Lava Jato, mas tenho tudo contra a mentira. Desafiou o juiz Sergio Moro, o Ministério Público, a Polícia Federal, o Tribunal Regional Federal da 4ª Região, a provar o crime que tenha cometido. “Se eles provarem, eu paro de fazer política e vou embora. Mas quero uma única prova convincente” afirmou. Lembrou da invasão ao seu apartamento e da revista feita pela PF, que nada encontrou. “Estou nessa luta para defender a minha honra”.

Afirmou que, uma vez eleito, irá revogar todo o “desmonte” feito pelo governo Temer. Prometeu federalizar o ensino médio do País e disse que, no seu governo, “todo aquele que ganhar até cinco salários mínimos estará isento do Imposto de Renda. ” “Esse país precisa voltar a ser feliz, a sonhar, ter esperança”. 

Para ele, ninguém irá conseguir prender os sonhos, as ideias, os projetos de um Brasil mais justo. “Se me impedirem de ser candidato, de andar por esse país distribuindo esperança, eu andarei por meio das pernas de vocês. Vocês levarão as minhas ideias e meus projetos por todo esse Brasil. Se me calarem, vocês serão a minha voz”.

Passava das 22 horas quando Lula encerrou sua fala. Chovia muito, mas a multidão mantinha-se atenta. “Quero dizer que nunca tive tanta vontade de voltar a ser presidente da República” afirmou. Conclamou a todos a permanecerem unidos “porque vamos devolver a esse País a alegria e seremos, novamente, uma grande nação ”.

Há menos de um quilômetro do local, o Movimento Brasil Livre (MBL) ensaiou uma manifestação na Praça Dezenove de Dezembro, no centro da capital paranaense. Menos de cem pessoas se espalhavam pelos gramados.

Pouco mais distante, o deputado Jair Bolsonaro era recebido no aeroporto Afonso Pena por menos de trezentas pessoas. A caminho do município de Ponta Grossa, a 100 quilômetros de Curitiba, tratou de subir no caminhão de som para falar aos simpatizantes. Jactou ódio e violência.

No discurso, defendeu que a Polícia Militar “atire para matar em defesa do povo” e justificou o uso de armas pela população. “Podem ter certeza, os nossos homens de segurança, quando cumprirem uma missão, serão condecorados e não mais processados. Eu quero uma Polícia Militar que, em defesa do povo, atire para matar”, disse. “E para o povo brasileiro nós queremos também o direito à legítima defesa. Sem história de desarmar vocês e deixar os vagabundos soltos muito bem armados por aí”.

Publicado originalmente no portal Carta Capital