5 de abril de 2026

A janela fechou, mas a bagunça ficou, por Guálter George

A charge Carlus Campos ilustra o momento (Foto: Reprodução/O Povo)

A atividade política, dentro das etapas cíclicas que costuma experimentar no País, vive um momento de forte degradação nestes dias atuais. Culpa, na maior parte, do comportamento dos próprios políticos, dos agentes públicos que deveriam se sentir os maiores responsáveis por protegê-la. Nada seria mais didático para expor a fase delicada em que nos encontramos do que a tal janela partidária, finalmente fechada à meia noite de ontem.

A ideia original parecia até boa, consistindo em criar um tempo para flexibilização da regra da fidelidade partidária na perspectiva de oferecer uma possibilidade de saída justificada para quem eventualmente enfrente dificuldades reais de convivência na sigla à qual estava ligado, quando eleito para um mandato popular. Em outras situações, igualmente questionáveis, acontece de um partido ter determinado posicionamento político e ideológico numa época e depois mudar para outro lado por decisão de cúpula. Com pouca atenção ao fato de seus filiados ficarem em maus lençóis diante de parte dos seguidores e eleitores, considerando aqueles que são detentores de mandato. Isso, quando algum compromisso há com a coerência.

Ou seja, parecia a oferta de uma saída legal e justa para quem demonstre incômodo com esses movimentos que, muitas vezes, somente a esperteza política consegue explicar. O problema é que desvirtuou-se tudo no caminho percorrido entre concepção e prática e os envolvidos se movem de olho apenas nos cálculos eleitorais, nem aí para o que defendiam na temporada eleitoral anterior. O que seria uma alternativa justificada para os bons, virou uma oportunidade para os maus.

Olhe o cenário cearense e veja a bagunça em que se transformou. Dos 46 deputados estaduais, segundo a última contagem que fiz e que pode estar desatualizada, 17 aproveitaram a brecha legal para ir atrás de um novo abrigo partidário, a maioria de olho em facilidades políticas e pessoais para seus planos eleitorais próximos. Na maioria dos casos a mudança acaba justificada por uma movimentação de cúpula que lança o parlamentar, sem dar-lhe opção muitas vezes, para um lado que contraria o que tem sido sua posição histórica. Falando-se do geral, de gente que era oposição e virou governo e de quem era apoiador de uma gestão e passaria à condição de crítico dela, de repente. É bagunça geral mesmo.

O cenário conclusivo é igualmente trágico entre os 22 deputados federais que representam o Ceará na Câmara, em Brasília. Destes, pelo menos 8 (também aqui posso ter deixado de captar alguma coisa) mudaram de partido, em alguns casos também de "ideologia", com todas as aspas que esta definição anda a exigir nos dias de hoje.

Em meio a tudo isso, como cobrar do eleitor que tenha capacidade crítica e faça suas escolhas observando o compromisso de cada candidato com as agendas e com o que fez parte da plataforma eleitoral que lhe foi vendida em campanha? Até acho que o brasileiro (e o cearense), exerce relativamente bem o direito que a democracia lhe oferece de escolher seus representantes nas várias instâncias da política. A recíproca é que quase nunca se demonstra verdadeira.

"Inveja" de cearense

Ciro Gomes deu um tempo nas suas articulações locais, cearenses, para atacar o governador petista do Piauí, Rafael Fonteles, consta que para atender um apelo do neoaliado Ciro Nogueira, líder nacional do PP. Sugerindo à população de lá que fique de olho nas contas públicas pelo fato de o governo, nas mãos do PT há 24 anos, com um breve tempo entregue a um aliado do PSB, estar obtendo empréstimos quase que no mesmo volume de São Paulo. 

Reação de Fonteles? "Fico lisonjeado, porque durante muito tempo ficávamos aqui olhando para o Ceará, meio que com inveja (do seu sucesso), e agora são eles que olham pra gente", disse, secamente. Com um sorriso meio sapeca escorregando pelo canto de boca, notava-se, mas o fato é que as contas públicas foram ajustadas no vizinho estado o suficiente para abrir espaço para créditos em volume que chama mesmo atenção, ao ponto de estar situado no mesmo plano da unidade economicamente mais forte da nossa federação. É problema ou solução, conforme o que se faça com a oportunidade que surge.

A política na horizontal

Mauro Benevides Filho, uma das surpresas da janela partidária em sua reta final, decidindo trocar o PDT pelo União Brasil, tem seu rumo definido na disputa local ao optar pela coerência pessoal no apoio a Ciro Gomes na briga pelo governo do Ceará. Deputado federal era, na Câmara, uma das mais ativas vozes de defesa do governo Lula, atuando lá como vice-líder para assuntos econômicos. Estará ladeado no palanque por gente disposta a atacar o que aconteceu no País desde 2023 e resta saber como se comportará.

Sandra Cavalcante, ex-chefe de Gabinete da prefeitura de Juazeiro do Norte, e que vem a ser a mulher do prefeito Glêdson Bezerra (Podemos), surpreendeu com seu anúncio de que estará filiado ao Cidadania, integrando a federação do partido com o PSDB. A ideia é que ela seja candidata a deputada estadual, mas o seu nome tem sido vinculado também entre as opções de vice para a chapa de oposição estadual, liderada por Ciro Gomes. Aliás, fala-se em até 24 primeiras-damas municipais nas urnas em 2026, número meio fora do normal.

Jade Romero, a vice-governadora que anunciou volta ao PT, com isso deixando o MDB, acabou mesmo sendo induzida a uma atitude meio constrangedora ao anunciar, lá atrás, que estava indo para o União Brasil. Era algo totalmente evitável e se a ideia era pressionar mais a cúpula nacional do UB, valendo-se do peso do cargo no qual ela está hoje, o efeito acabou sendo contrário. Ou seja, a vitória da ala oposicionista, que ficou com o comando da Federação Progressista, ganhou expressão ainda maior.

Publicado originalmente no portal O Povo +

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