29 de outubro de 2026

A carta ao 'Brazil' e o risco de um novo 8/1, por Henrique Araújo

O tom imodesto de Flávio na sua carta aos "Estados Unidos do Brazil" seria apenas patético, não fosse o histórico recente do bolsonarismo (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

Embora o momento seja outro, e mesmo o candidato derrotado Flávio Bolsonaro (PL) já tenha se evadido por meio de uma trama novelesca, há um clima de oito de janeiro nesse movimento de empresários bolsonaristas. Em declarações nas redes sociais, sem pudor nem medo do ilícito, encorajam outros empregadores a praticarem ilegalidades, demitindo funcionários em razão de suas convicções.

Tudo às escâncaras e vazando um misto de ressentimento e preconceito, tal como em 2022, quando Jair Bolsonaro se tornou o primeiro presidente desde a redemocratização a perder uma reeleição. Quatro anos depois, foi a vez de o "zero-um" amargar derrota no segundo turno depois de ter vencido o primeiro – o que ele chama, na sua gramática golpista, de "fraude", para a qual obviamente não tem qualquer prova.

Mas isso são marcas que logo ficam para trás. O que interessa aqui é o contraste: de um lado, o senador fujão cujo plano de sumiço já havia sido elaborado ainda durante a campanha. E, do outro, esse eleitorado feito de bobo por seu representante, mas que, mantendo-se num transe de negacionismo eleitoral, procura um culpado para o resultado das urnas.

Ora, Flávio não sofreu revés por causa dos votantes de Minas Gerais, do Rio de Janeiro, de São Paulo ou do Ceará e Bahia, tampouco pelo tempo extra concedido pelo Supremo Tribunal Federal (STF), ao fim do qual pouco mais de 30 mil pessoas tinham depositado seus votos.

A queda

Flávio Bolsonaro perdeu porque 1) escalou três patetas (Nikolas, Pavanato e Marçal) para a linha de frente da sua campanha num momento decisivo, porque 2) deixou uma ministra da Fazenda hipotética semeando patacoadas às vésperas do pleito e 3) porque ele mesmo, o candidato, não se aguentou sob a máscara do "media training" e, nos debates, deixou escapar sua face verdadeira: debochado (ironizando a rouquidão do adversário), moleque (desrespeitando as regras do programa televisivo) e desumano (fazendo pilhéria de deficiência e incapaz de se solidarizar com uma mãe cuja filha foi assassinada).

A trama

A esse caldo de intolerância latente se soma a campanha do nome do PL, que jamais soube disfarçar a intenção expressa de livrar o pai e todos os condenados pelo 8/1 de 2023 – mais ou menos como Davi Alcolumbre parece querer fazer, a pretexto de pavimentar sua recondução.

A candidatura de Flávio, por si, constituía o eixo central do plano para soltura da turba que investiu contra o país naquele dia. A diferença é que agora tentaria pela via eleitoral – daí que Tarcísio de Freitas tenha sido escanteado.

O projeto de se eleger não era, então, mera blindagem pessoal, mas o salvo-conduto para a família, que se veria livre em caso de vitória, com Jair fora da prisão domiciliar e Eduardo retornando ano que vem, depois de conformada uma nova maioria no STF para rever os processos em andamento.

Como nada disso foi possível, Flávio pôs em prática a manobra de escapada, coroada com a piada pronta da "presidência autodeclarada".

A carta

Noutras circunstâncias, o tom grandiloquente e imodesto de Flávio na sua carta aos "Estados Unidos do Brazil" (a certa altura, o "zero-um" se compara a Rui Barbosa e Charles de Gaulle) seria apenas patético, não fosse o histórico recente do bolsonarismo.

Assim, trechos que sugerem ação coordenada a partir dos EUA para impedir a posse de Lula em um quarto mandato precisam estar sob atenção redobrada das autoridades nacionais, visto que reeditam a já conhecida retórica antidemocrática de aliados de Jair nos dias que se seguiram à vitória do petista no pleito de 2022.

Publicado originalmente no portal O Povo +

Leia também:

O golpista trapalhão ou delírios de um pusilânime projeto de usurpador

Nenhum comentário:

Postar um comentário

A Administração do Blog de Altaneira recomenda:
Leia a postagem antes de comentar;
É livre a manifestação do pensamento desde que não abuse ou desvirtuem os objetivos do Blog.