31 de outubro de 2026

Renan Santos reconhece erros e afirma que seu partido diverge da direita brasileira

Renan concedeu entrevista a equipe da rádio O Povo/CBN (Foto: Reprodução/Redes Sociais)

O ex-candidato a presidente da República Renan Santos (Missão) afirmou que não faz parte da direita brasileira, campo político que ele associa a "gostar" do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e ser contra o PT. Neutro durante o segundo turno, o presidente do Missão também explicou por que avalia que a decisão de não apoiar nem o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nem o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) é um "ato político", e não "ficar em cima do muro".

O fundador do Movimento Brasil Livre (MBL) participou, remotamente, de uma entrevista exclusiva na rádio O POVO CBN na manhã desta sexta-feira, 30. Em sua primeira disputa eleitoral, o ex-presidenciável foi o quarto candidato mais votado no primeiro turno, com 2.675.887 votos (2,24%).

No Ceará, a legenda presidida por Renan lançou a candidatura de Delegado Huggo ao Governo do Ceará. O postulante ficou em terceiro colocado e obteve 17.219 votos (0,32%).

Novela bolsonarista

Renan Santos classificou a crise bolsonarista em torno da fuga de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos como uma "novela de Instagram", e disse que a trama gera entretenimento com personagens crescendo, como o deputado federal reeleito Nikolas Ferreira (PL-MG) e a ex-primeira-dama e senadora eleita pelo Distrito Federal (DF), Michelle Bolsonaro (PL).

"A novela continua. É uma novela, um entretenimento vinculado à figura da família Bolsonaro. Naturalmente, novos personagens estão crescendo nessa novela. Por exemplo, o Nikolas cresce, a Michelle que é um personagem que está com a família e não está ao mesmo tempo", afirmou.

O ex-candidato à Presidência descreveu que o movimento bolsonarista precisa "manter o protagonismo" para se tornar o "mocinho" no final da novela. Na analogia, Renan cita que o cargo de protagonista é disputado entre o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), o candidato à Presidência derrotado e o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL).

Carlos Bolsonaro (PL-RJ), senador eleito por Santa Catarina, e Jair Renan Bolsonaro (PL-SC), deputado federal eleito por Santa Catarina, teriam ficado de fora da "novela", segundo Santos, por serem "inimputáveis".

"Nesse grande elenco, o que o bolsonarismo tem que manter é o protagonismo, tem que ser o mocinho que vai protagonizar o final da novela, seja Jair, Flávio ou Eduardo. Falo destes três, porque os demais filhos são meio inimputáveis, são o 'Tonho da Lua', o 'Carluxo' então. São personagens menores na trama e eles não conseguem alterar a dinâmica."

"Novo capítulo"

Após ser derrotado no segundo turno por uma diferença de 4,4 milhões de votos, Flávio Bolsonaro acusou, sem provas, que as eleições presidenciais foram fraudadas e que seria impossível reconhecer o resultado do pleito.

Dias depois, o senador foi intimado pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), a entregar o passaporte à Polícia Federal (PF).

Em ato de desobediência, não entregou o documento no prazo determinado, teve o passaporte cancelado e fugiu com a família para os Estados Unidos por rota de carro na Argentina, escala no Equador e voo até Miami.

Para Renan Santos, a crise que envolve o senador e o campo bolsonarista se torna entretenimento para os eleitores de Flávio, já que eles se perguntam o que pode acontecer nos próximos dias:

"Eu acho que a 'novela de frutas' do Bolsonaro, que é uma novela de Instagram, ela ganha um capítulo novo. Acho que o entretenimento para uma parte da população, desses 60 milhões de eleitores continua. 'Será que ele vai encontrar o Trump? Será que o Trump vai apoiar ele? Será que o povo aqui no Brasil vai continuar respeitando ele? Será que o Tarcísio vai ouvir ele? Será que o Jair vai continuar preso? Será que vão soltar o Jair?'", analisou Renan.

Missão diverge da direita brasileira

Presidido por Renan Santos, o Missão foi oficialmente aprovado e registrado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em 4 de novembro de 2025. Efetivamente, a legenda elegeu somente dois candidatos, para deputado estadual e federal: Kim Kataguiri, antes filiado ao União Brasil, e Rafa Minato.

O dirigente da legenda afirmou que não faz parte da direita brasileira pois, segundo ele, se resume principalmente a apoiar o bolsonarismo.

"A gente tem que definir o que é a direita no Brasil, que, sendo bem sincero, como ela é um fenômeno recente, direita de redes sociais, a gente pode cravar que ela é Bolsonaro. O que é ser direita: é gostar do Bolsonaro, naturalmente ser contra o PT, defender de maneira estética um conjunto de valores que não, necessariamente, a pessoa pratica na vida pessoal dela Se você vai contra essas premissas, você não é de direita", repudiou.

Renan defende a construção de uma ala política em que possa se localizar com o Missão e defender aquilo que acreditam, o que disse não ser possível em conjunto com a direita bolsonarista. O ex-presidenciável afirmou não gostar de Flávio Bolsonaro, nem o que ele defende nem a maneira de conduzir a campanha.

"Já há muito tempo, nós não somos parte da direita brasileira: primeiro, a gente não gosta do Bolsonaro; segundo, a gente não gosta das coisas que ele fala; terceiro, a gente não gosta do jeito dessa gente de fazer campanha. A gente não tem os valores éticos deles, o sistema de valores deles. A gente não tem nada a ver com eles", resumiu.

Mérito a André Fernandes

Questionado sobre a eleição de políticos que fizeram a campanha ativamente nas redes sociais, o presidente do Missão disse não enxergar problema no método, desde que o candidato não se torne refém da ferramenta digital.

Enquanto criticava o ato de dançar, popularizado entre nomes como os dos deputados eleitos Lucas Pavanato (PL-SP) e Eduarda Campopiano (PL-SP), Renan Santos citou o "Bloco do 22", movimento de campanha idealizado pelo deputado federal André Fernandes (PL).

"Aí a gente vê esse fenômeno dessa eleição, que ainda vai ser estudado, que é o da dança, basicamente candidato de dança. A candidatura do Flávio Bolsonaro no segundo turno se resumiu a dançar. Não estou cometendo nenhum exagero retórico, não estou tentando diminuir ele, ele juntou o André Fernandes aí do Ceará, criou um método com muito mérito nisso, um comício-dança e é sucesso nacional".

O ato criado pelo presidente do PL Ceará trouxe ao Estado membros e aliados da chapa presidencial de oposição, como o próprio filho mais de Jair Bolsonaro, Nikolas e também o então candidato a vice-presidente Alfredo Gaspar (PL). Renan classificou o fenômeno como desesperador.

"Em Fortaleza é um lugar quente, caloroso, mais festeiro. A galera do Rio Grande do Sul estava dançando também no final, todo mundo começou a cair nos passinhos e ficou nisso. Eu acho que isso é  desesperador".

Nikolas Ferreira

Quanto ao parlamentar mineiro, o fundador do MBL opinou que um dos fatores que atrapalharam a campanha de Flávio foi a produção do polêmico vídeo sobre o interior da Bahia.

"Aquele vídeo do Nikolas, acho que contribui para a derrota do Flávio. É um vídeo que trabalha com estereótipo, você coloca um filtro sépia, meio amarelado, 'a gente sofre muito aqui, a picanha não veio', manda tirar a antena parabólica do quadro, são simplificações de rede social para construção de um discurso muito específico. Nesse ponto, não creio que ele foi feliz para o Flávio. Vazou o material", disse.

Com a massiva vantagem do petista sobre o senador em votos no segundo turno, Renan indicou que a intenção de Nikolas teve o efeito contrário.

"Eles ganharam voto, o Lula cresceu no Ceará, no Nordeste todo para o segundo turno. Acho que ficou um recado para eles que quando você acha que é esperto demais, a esperteza acaba te engolindo. Eles pegaram alguém mais esperto no caminho e engoliu eles".

"Sem atuação política"

O ex-candidato à presidência prolongou as críticas e afirmou que o deputado Nikolas não possui atuação política, que não há trabalho dele na Câmara dos Deputados e ele "basicamente faz vídeo lacrando".

"É isso. Ele grava vídeos e é adorado por isso. É aquela coisa em que gravar o vídeo é mais importante que ser deputado", falou Renan.

O presidente do Missão também avaliou a situação do Congresso Nacional como complicada, pois, segundo ele, cerca de 60 ou 70 deputados eleitos são da turma de Nikolas:

"Você usar o vídeo como recurso para te ajudar a ganhar uma eleição e tocar uma plataforma, não tem problema nenhum, são as regras do jogo. Agora, você gravar um vídeo, porque sendo parlamentar você pode gravar mais vídeos, cria uma regra, essa regra da política idiotizada. Aí agora fez uma sequência, a turma do Nikolas, o deputado influencer, só na direita deve ter mais de 60 ou 70 eleitos agora. Vai ser bem complicado o trabalho no Congresso".

Projeto de oposição e não-voto

Após a definição de segundo turno entre Lula e Flávio em 4 de outubro, Renan manteve a postura neutra, afirmando que não indicava a ninguém votar em bandido, termo que designou aos dois candidatos. O ex-postulante não apoiou nenhuma das candidaturas e sequer foi às urnas.

Renan defende que a decisão de não votar em Flávio ou Lula é um ato político, e que estará aberto a conversas com membros da esquerda e direita.

"O não-voto também é um ato político. Ele não pressupõe uma ausência de posição. Ele pressupõe uma tomada de posição ativa e altiva de oposição. Eu estou disposto a conversar com esquerda, direita, vamos construir uma plataforma comum no Congresso para tentar passar. Já estou tendo respostas bem legais de gente, inclusive, da esquerda para conversar".

Segundo Renan, um posicionamento covarde é o de não se pronunciar por medo do que terceiros vão pensar.

"O não-posicionamento é um posicionamento covarde, quando você sabe que está errada a posição majoritária do seu grupo, mas você não quer ter uma opinião para não se queimar. Acho que minha opinião foi bem política e gerou muitas discussões. Nada pode ser mais político do que isso".

"Questão de tom"

O dirigente do Missão afirmou que, apesar de considerar ter sido o único presidenciável a apresentar propostas, errou em alguns comportamentos durante a campanha. Ele diz que o comportamento "agressivo" não combina com o seu jeito de ser.

"Eu tinha as propostas mais coesas e sérias, fui o único a apresentar um nível de propostas. Eu realmente estava com propostas, só que eu estava com uns dois ou três tons acima, aí eu falei: 'Acho que estou errado nisso'. Beleza, isso é uma questão de tom. Eu vou manter essa postura de agora em diante, porque basicamente estou sendo eu mesmo. 'Prendeu, matou', eu acho que não bate. Nem combina com o meu jeito de ser".

Publicado originalmente no portal O Povo +

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