7 de abril de 2018

Com amplo apoio popular Lula não se apresenta para prisão

Lula da janela do Sindicato acena para os manifestantes em São Bernardo do Campo - SP (Foto: Ricardo Stuckert)
No coração da militância lulista em São Bernardo do Campo, um andar inteiro foi dedicado a alguns petistas mais chegados, conhecidos antigos, “imprensa amiga” e políticos. O segundo piso do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC passou quase todo o dia com seguranças controlando com rigor a entrada e a saída dos “companheiros”. Os também pré-candidatos à Presidência da República Manuela D’Ávilla (PCdoB) e Guilherme Boulos (Psol) visitaram Luiz Inácio Lula da Silva na sala da presidência da entidade.

“Resolvemos deixar as diferenças de lado. Esquerda unida jamais será vencida”, disse Boulos. O choque e tristeza do mandado de prisão que saiu antes do esperado ficou na quinta-feira. Era passado. A sexta, 6 de abril, deveria ser de resistência. Teve batucada, choro, expectativa. A angústia, que já dura meses, se acentuou ao longo da tarde.

Cada minuto até o bater das 17 horas, prazo dado pelo juiz Sergio Moro para Lula se entregar, passava com tensão. Qualquer grito ou muvuca era sinônimo de correria. Corriam os fãs e a imprensa. “É ele? Vai falar? Vai ter discurso?”, ninguém sabia. Nem o próprio Lula. Enquanto isso, surgiam teorias de como seria dali para frente, água e comida. Liberaram o almoço de arroz com feijão e carne cozida. “Era R$ 16 a refeição. Mas não estão mais cobrando porque acabou o churrasco. Podem se servir”, disse o garçom.

“Tem que comer, né, companheira? Porque o rojão vai ser grande. Vai ter luta. Vão vir com tudo para cima da gente”, comentou uma mulher de vermelho, na casa dos 50 anos, à mesa do restaurante do sindicato.

O fim do prazo foi celebrado com música e contagem regressiva. Depois de anunciado que subiria ao carro de som, Lula desistiu no meio do caminho. A multidão foi se amontoando pela rua no cair da noite. Mas antes das 20 horas, começou a se dispersar. A segurança baixou um pouco a guarda e entramos, a imprensa, o mais discretamente que podíamos no tal segundo andar.

Em volta da sala da presidência do sindicato, onde estava Lula, família, amigos e dirigentes do partido, havia uma cerca de metal. Lá dentro, uma sala o isolava dos demais. Do lado de fora, deputados e sindicalistas formavam rodas de conversa. Riam, cochichavam. Mais seguranças vigiavam quem tentasse furar o bloqueio.

Na varanda, o ex-prefeito Fernando Haddad, visto como o plano B do PT para candidatura à Presidência, fumava uns cigarros com um grupo de homens, assessores e amigos. “Não vou dar entrevista. Estou cansado, há 14 horas aqui”, disse a um conhecido. Enquanto isso, discutia na noite fria que até seus amigos advogados da direita não viam motivo para a condenação de Lula. E criticou a atual gestão da Prefeitura, a ferida aberta da derrota para João Dória no ano passado.

“Lula está bem, está reunido com os advogados. Não vi os aposentos dele, mas está bem acomodado com a família”, afirmou o deputado Henrique Fontana às 19 horas. O presidente do PT de São Paulo, Luiz Marinho disse que Lula estava bem cuidado. O espaço para ele já estava montado havia meses. “Sempre houve esse espaço aqui no sindicato”, disse Marinho.

Na noite de ontem, o plano, segundo Rui Falcão, era o de negociar como se daria a, agora admitidamente inevitável, prisão de Lula. Para esta manhã, às 9h30min, ali mesmo no sindicato, estava marcada a missa de aniversário da já falecida Marisa Letícia, mulher do ex-presidente. Depois da celebração, poderiam ser considerados os termos de encarceramento. Domingo, talvez, seja o dia em que ele se encontrará com a Polícia Federal (PF).

Assim como o discurso de Lula, a PF nunca veio. Não houve confronto, cordão humano. Na rua do sindicato só tinha veículos de imprensa. De carro oficial, só os da Guarda Municipal de São Bernardo que bloqueavam a rua e um com placa preta da Assembleia Estadual de São Paulo (Alesp). “Nós vencemos”, disse a deputada federal Maria do Rosário. Para os petistas, o ato político estava enfim, consolidado.

Com informações portal O Povo Online