14 de abril de 2018

Manifestantes contam com solidariedade dos moradores para manter protesto em defesa de Lula

Lava-jato desativado serve de local de banho para acampados em Curitiba (Foto: René Ruschel)
Há menos de quatrocentos metros da sede da Superintendência da Policia Federal, no bairro Santa Cândida, em Curitiba, um lava-jato desativado abriga dois contêiners que servem de local para o banho das mais de mil pessoas que permanecem acampadas em protesto a prisão do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. São apenas dez chuveiros em cada container. As mulheres têm direito a sete minutos para o banho, enquanto os homens apenas cinco. No fim da tarde, a fila se esparrama pela calçada.

Desde domingo 8, os manifestantes enfrentam alguns problemas pertinentes a qualquer acampamento. As barracas, dispostas sobre calçadas ou espaços gramados, dividem as ruas com ônibus. As cozinhas, dezessete ao todo, são coletivas. Os únicos vãos livres são a entrada dos carros nas garagens. Alguns moradores contrários a presença dos manifestantes cercam a frente da residência com cordas ou fitas adesivas. Outros se mantêm reclusos e evitam qualquer tipo de contato.

Nesta sexta-feira 13, a prefeitura de Curitiba pediu a transferência de Lula da sede da Polícia Federal. No início da semana, os delegados da PF haviam feito a mesma solicitação ao alegarem transtornos para a rotina policial.

À medida que as caravanas aumentavam e os problemas cresciam, a única solução foi apelar para a solidariedade dos moradores. Gelsoli Bandeira dos Santos, servidor público municipal, foi um dos que abriu os portões e portas para receber os acampados. “Eu trabalhei na rua durante muito tempo e sei o quanto é difícil não ter um copo d’água. Por isso não pensei duas vezes em ajudar a quem eu puder”.

Na sua casa, os visitantes entram na sala, sentam no sofá, à mesa para as refeições, tomam banho e assistem televisão. “Faço por eles o que gostaria que fizessem por mim. Faço o que Deus toca em meu coração. Foram mais de quinhentas pessoas que passaram por aqui”. Apolítico, acha a prisão de Lula uma enorme injustiça. “Foi o único presidente que olhou pelos pobres. Eu mesmo, até ele assumir o governo, só comia carne se fosse pé de frango ou carne de segunda” afirmou.

No outro lado da rua, Edvam, que preferiu omitir o sobrenome, conta que ficou sensibilizado quando viu crianças chorando e mães procurando água quente para fazer mamadeira. “Vi muita gente cansada, sem tomar banho e crianças chorando. Ofereci primeiro as mulheres e crianças. Depois, vi que era gente do bem e resolvi abrir a casa” conta ele.

Ana Claudia da Silva, mora na casa ao lado. Quando viu o vizinho ceder as instalações, resolveu imitá-lo. “Primeiro vieram pedir água. Depois, para carregar o celular. Eu fiquei conversando com eles e vi que eram pessoas sofridas, que precisam de ajuda. Eu sou pobre, moro em uma casa pequena, mas ofereci ajuda”. Para ela, os acampados representam a luta em favor dos mais pobres. “Quem critica a presença deles são os ricos. Eu não vi nenhuma bagunça”. Afirmou.

A dona de casa Regiane do Carmo Santos é outra que faz questão de dizer que “não tem partido”. Para ela, ser solidário é obrigação de qualquer ser humano, independentemente de partido, credo ou cor. “Na verdade, estou me sentindo muito feliz, muito alegre de ter esse povo todo aqui na minha casa. De ver a minha rua movimentada”.

Afirmou que nunca tinha vivido qualquer experiência como essa, mas nesses dias aprendeu muito conversando com as pessoas. “Eu achava que tudo isso era uma bagunça, mas descobri que eles lutam por uma causa justa e pelo bem-estar das pessoas. Aqui na minha casa tem médicas e professoras de São Paulo. Só aprendi com elas”.

Mas nem tudo é solidariedade. Nas ruas que circundam o acampamento, o Batalhão de Trânsito da Policia Militar, em parceria com a Secretaria Municipal de Trânsito e a Guarda Municipal, organizou uma operação para guinchar os carros estacionados. Um drone sobrevoa a área para auxiliá-los. Um morador que pediu anonimato, afirmou que as ruas do bairro são pessimamente sinalizadas e que, “jamais houve aqui qualquer blitz. Por que justamente nesses dias eles estão aqui”?

Até uma blitz foi improvisada. O motoqueiro Ronaldo, que também pediu anonimato de seu sobrenome, teve sua moto presa por falta de pagamento do IPVA. Nervoso, afirmou aos prantos que não perdia apenas a moto, mas o bico de entregador recém-conquistado. “Reconheço que estou irregular, mas não paguei o IPVA porque estou desempregado. Agora, prendem minha moto. Como vou sobreviver? Como vou pagar o que devo? ” protestava sentado à beira da calçada.

Para o sindicalista Carlos Rui Medeiros, de Florianópolis, tudo está sendo feito para inviabilizar a presença dos manifestantes. “Eles querem esvaziar nosso protesto. Não permitir carros ou guinchar é uma forma de intimidar. Mas nós não sairemos daqui enquanto Lula estiver preso” afirmou.

Publicado originalmente no portal Carta Capital