27 de abril de 2018

Falta à oposição mais que candidato por Érico Firmo


A oposição no Ceará testa o general Guilherme Theophilo como candidato. Por ora, é um balão de ensaio, a conferir se consegue ou não se firmar. Mesmo os otimistas acham que ele nem precisaria ir ao segundo turno para fazer boa figura. Um desempenho digno já seria de se comemorar. Porém, o problema é maior. A falta de rumo do grupo que se contrapõe a Camilo Santana (PT) não é apenas pela ausência de nome competitivo para a disputa. 

O problema começa pelo fato de não ser um bloco. Não existem forças estruturadas, organizadas, minimamente coesas que façam questionamento ao governo. Não há constância, presença de atuação na Assembleia Legislativa - e não é por não haver munição para tanto. Nem há plataforma política, bandeiras, discurso, coisa nenhuma.

O eventual governo que surgiria de uma possível coalizão oposicionista seria uma baita incógnita. Estão lá desde Tasso Jereissati (PSDB), de inclinações liberais e de redução do Estado, até o Capitão Wagner (Pros), cujos apoios e atuação estão pautados em corporações de servidores públicos. No meio disso, estão Lúcio Alcântara, de volta ao PSDB 12 anos depois de protagonizar, com Tasso, o mais ruidoso rompimento da política cearense neste século. Está Roberto Pessoa, que também já disse e ouviu muitas e más sobre e de Tasso.

O novo e revigorado PSDB emerge com o improvável retorno de Lúcio e a entrada de Roberto Pessoa, depois de ter visto o controle do PR ser tomado dele para ser entregue à deputada federal Gorete Pereira e ir assim parar na base governista.

Também na oposição,está Genecias Noronha (SD), dono do maior reduto de votos do Ceará na atualidade. Nenhum líder político tem tamanho controle sobre um colégio eleitoral quanto ele em Parambu. Uma forma, digamos, muito tradicional de fazer política. E há o MDB, doido para ficar na base de Camilo, mas com receio de ser colocado para fora da aliança governista. Não que a minguada oposição possa rejeitar o presidente do Senado, Eunício Oliveira. Mas, é uma incógnita como ele seria recebido.

Para complicar, o próprio Tasso tem relação bastante cordial e faz elogios a Camilo. Não estivesse o governador filiado ao PT e comprometido com dois pré-candidatos a presidente - Ciro Gomes (PDT) e Luiz Inácio Lula da Silva ou quem quer que o PT indique - o caminho mais óbvio seria os tucanos estarem na base aliada. Genecias também faz afagos em relação ao Palácio. Não faz muito tempo, posou sorridente em foto com o governador. Em eleições passadas, chegou a declarar apoio a um lado e mudar para o outro conforme as negociações se afunilam. Ele controla muitos votos, entrega a mercadoria, mas pede alto em troca.

Esse é o panorama do grupo que,em tese, almeja chegar ao poder no Ceará. Oferecer alternativa ao ciclo que completará 12 anos no cargo. Não é propriamente um projeto. A chegada de um general de fora da política, que fez carreira longe do Estado, não é propriamente algo que deixe o cenário mais claro.

É uma pena que há tanto tempo o Ceará não tenha oposição forte, consistente e que não aparece apenas nas eleições. É sintoma da miséria da política estadual. Grupos oposicionistas fortes só se viabilizam quando vislumbram chances de chegar ao poder. Por isso, eles nascem dentro dos governos. Foi assim que Cid Gomes rompeu com Lúcio Alcântara meses antes da eleição para virar governador. E que Eunício tentou o mesmo em 2014, sem o mesmo sucesso.

É necessário para a democracia haver oposição real. A situação de falta de contraponto que se tornou regra no Ceará é lastimável. Desse cenário se chega ao que acontece hoje no Ceará: improvisa-se um nome para tentar transformar em governador. Não é a forma mais séria e respeitosa de tratar a população e o Estado

Publicado originalmente no portal O Povo Online