2 de abril de 2018

Como se construiu a onda de ódio no Brasil


Tomates, ovos, pedras e tiros têm sido os protagonistas das últimas manifestações públicas no Brasil envolvendo lideranças políticas e integrantes do Judiciário. Das críticas sadias típicas da democracia de qualquer nação, o Brasil vive atualmente uma onda de ódio que deixou as redes sociais e, agora, passou a ocupar as ruas.

O último grave episódio de intolerância nas manifestações públicas ocorreu na última terça-feira (27/03) quando a caravana do ex-presidente Lula, que viajava pelo Sul do País, foi alvejada com disparos de arma de fogo. A Polícia Civil investiga sob o prisma de tentativa de homicídio. 

No início deste mês, a vereadora do Rio de Janeiro, Marielle Franco, do Psol, foi brutalmente executada a tiros. A parlamentar tinha posições firmes em defesa dos direitos humanos e fazia denúncias contra a Polícia Militar e as investigações ainda não apontam suspeitos. O caso foi o ápice do ódio político que ameaça dominar o Brasil.

Para cientistas políticos consultados pelo jornal O POVO, a situação atual do País não surgiu da noite para o dia. Foi um processo de construção que uniu os mais diversos elementos. “Esse processo vem desde o impeachment, arrastando pessoas e segmentos da classe média para um chamamento muito radical”, diz a historiadora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), Dulce Pandolfi. Os primeiros sinais da radicalização deveriam ter sidos “censurados” para evitar o crescimento das práticas totalitárias, continua a pesquisadora. 

O especialista em Ciências Políticas, Igor Pinheiro, aponta que parte da “culpa” do clima de acirramento é do Partido dos Trabalhadores (PT) que “decepcionou” parte da população brasileira durante os governos Lula e Dilma. 

Pinheiro, no entanto, destaca que a decepção não justifica os ataques e a intolerância. “Esses comportamentos são reflexos da falta de espírito de democracia do povo brasileiro. Se decepcionou, a resposta é na urna, não pode tomar medidas extremas. Isso é falta de maturidade democrática”, pontua o professor. A socióloga da Universidade Estadual do Ceará (Uece), Monalisa Soares, relembra que a onda de intolerância foi iniciada em 2014 com a polarização política no Brasil se fortalecendo quatro anos depois. Segundo ela, o  movimento se organizou em torno do “antipetismo”.

“De 2014 para cá, esse tipo de polarização se aprofundou porque a crise política brasileira se aprofundou. A crise não se resolveu e esse ódio foi sendo cultivado. Você passou a ter candidatos porta-vozes desse ódio. Significa muito para as pessoas ter um representante que faz claramente críticas às mulheres, negros, ao movimento LGBT… Esse fator não vai constranger”, destaca a professora, em referência à pré-candidatura do deputado federal Jair Bolsonaro (PSL) à presidência da República.

Com informações portal O Povo Online