15 de maio de 2018

A lista cearense de Geisel

Pedro Jerônimo, Antônio Teodoro e Frei Tito estavam na lista do ditador  Geisel
No mínimo três cearenses morreram ou desapareceram após o então ditador do Brasil, presidente Ernesto Geisel (1974-1979) autorizar, a partir de 11/4/1974, a execução de “subversivos e terroristas”. Um memorando da CIA, a Agência de Inteligência Americana, revelado na semana passada pelo pesquisador Matias Spektor (FGV), mostra que Geisel deu o aval para as execuções planejadas pelos generais João Baptista Figueiredo, Milton Tavares de Souza e Confúcio Danton.

Segundo levantamento após o documento articulado entre a CIA e o governo de Geisel Pedro Jerônimo de Souza foi morto em 1975, após ser preso, em 11/9, por agentes da Departamento de Ordem Política e Social (Dops). Sete dias após sua prisão, a família do militante do Partido Comunista do Brasil (PCB) recebeu a informação de que ele havia se suicidado com uma toalha de rosto em uma cela. Na verdade, ele foi executado por estrangulamento com uma haste de ferro. 

Antônio Teodoro de Castro, integrante do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) e desaparecido durante a Guerrilha do Araguaia. Ferido em 30/9/1972, ele teria sido executado e enterrado ou em 25/12/1973 ou 27/2/1974. Seu corpo teria sido enterrado a cinco ou seis quilômetros da Base do Mano Ferreira/cemitério clandestino da Base da Bacaba – Brejo Grande do Araguaia (PA).

Já Frei Tito, preso e torturado a partir da prisão em 1969, foi exilado em 1973 na França, onde se suicidou. Mas a morte é envolta em mistério e perturbações psicológicas do dominicano por causa da perseguição do delegado Sérgio Paranhos Fleury, que o prendeu e o levou ao limite do martírio.

Segundo Lúcia Rodrigues Alencar, sobrinha do religioso dominicano e diretora do Instituto Frei Tito, no Ceará foi criado o Grupo de Trabalho Memória e Verdade para acompanhar os desdobramentos de mais este capítulo da ditadura fundada em 1964.

Para a empresária Sandra de Castro, irmã de Antonio Teodoro, que tinha sete anos quando Teodoro foi embora de Fortaleza (1970) para se integrar à resistência armada, enquanto os governos não decidirem “desembrulhar de vez” o que aconteceu na ditadura o Brasil permanecerá no limbo da desconfiança e da culpa. “As energias não fluirão daqui. As pessoas que desapareceram precisam descansar o espírito. Sequer foram enterradas como deveriam”, diz.

Até hoje, duas irmãs de Sandra permanecem na busca pelos restos mortais de Teodoro – segundo mais velho numa família de nove irmãos. Maria Eliana e Maria Merces dedicaram parte da vida a procurar pelo estudante de Farmácia da Universidade Federal do Ceará (UFC) que foi para o Araguaia.

Sandra de Castro conta que na mãe, dona Benedita, nos irmãos e no pai Raimundo de Castro Sobrinho restaram consequências profundas. “Cada um a sua maneira. Meu pai silenciou. Minha mãe era a espera”, ressente. Vivia, segundo Sandra, achando que ele voltaria da Bélgica onde teria ganhado uma bolsa de estudos. Justificativa que Teodoro criou para não revelar sobre o Araguaia. “Os agentes da ditadura eram tão ruins que, após o matarem, espalharam que ele estava bem na Europa. Mamãe vivia correndo atrás de boatos”, recorda

A história revelada pelo pesquisador Matias Spektor, na avaliação de Sandra de Castro, foi apenas uma confirmação do que já acontecia no País desde 1964 quando os militares deram um golpe e assumiram o poder. “Para quem é parente de um desaparecido político é um horror viver no sobressalto de notícias assim. Passamos a reviver muita coisa ruim e não há um ponto final”, afirma.

Com informações portal O Povo Online