27 de maio de 2018

Greve dos caminhoneiros expõe isolamento de Temer


Quatro dias após caminhoneiros deflagrarem paralisações em todo o País, o governo Michel Temer (MDB) se sentou para negociar com grevistas. A reunião, considerada atrasada e improdutiva apesar de anúncios públicos de acordo, rendeu ao Planalto críticas não só de adversários políticos, como também de antigos – e essenciais – aliados no Congresso.

Muito além da instabilidade e receios de desabastecimento, a crise expôs o processo de isolamento de Michel Temer (MDB).

Desautorizado por presidentes da Câmara e do Senado durante as negociações com caminhoneiros, o emedebista amarga consequências do fim de um governo impopular, com crises no próprio partido e na base aliada.

O principal movimento ocorreu na última quarta-feira, 3º dia de greve, quando o Executivo ainda tratava a questão como de pouca relevância. Pré-candidato ao Planalto, o presidente da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), tomou iniciativa diante da inércia e, sem qualquer combinação, aprovou projeto que zera cobrança de PIS/Cofins sobre o diesel até o fim do ano.

A iniciativa de Maia, acompanhada por diversas críticas à condução do governo no caso, deixou claro o crescente distanciamento entre o Planalto e lideranças do Congresso, que já haviam enterrado, no início do ano, qualquer chance de votação da reforma da Previdência.

Aliado de primeira hora de Temer até meses atrás, o próprio presidente do Senado, Eunício Oliveira (MDB-CE), evitou associar a crise à Casa e se distanciou de Temer. O “xeque-mate” veio através de críticas do senador Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), líder de um dos principais partidos de sustentação do governo.


“Cadê o presidente da República? Cadê o ministro de Minas e Energia? Quem fala à sociedade e fala de forma arrogante é o presidente da Petrobras. Chegaremos num tempo em que o presidente da Petrobras é quem nomeará o presidente da República? Se o senhor Pedro Parente não se demite, que seja demitido, pelo bem do Brasil”, disse.

A perda de apoio prejudica planos do governo de, passadas as eleições, retomar a reforma da Previdência. Possíveis saídas para a crise que dependam da aprovação de parlamentares também exigiriam maior esforço do governo, sobretudo na perspectiva de adoção de medidas impopulares em ano de eleição.

Além disso, o isolamento complicaria ainda a vida do presidente no caso de uma terceira denúncia da Procuradoria-Geral da República contra ele - algo hoje visto, no entanto, como pouco provável. 

Paralelamente, avança no Senado - coincidentemente ou não - projeto que prevê eleição indireta em caso de vacância da Presidência.

Pesa ainda contra Temer a pouca eficácia – pelo menos até agora –  das ações promovidas pela gestão com o movimento grevista. Na reunião de quinta-feira, o governo anunciou com entusiasmo acordo que traria fim à crise, através do congelamento do preço do diesel bancado pelos cofres da União. Só que os protestos continuaram e o Planalto teve que apelar novamente ao Exército para desocupar vias obstruídas por caminhoneiros.

Paralelamente, o presidente deu respostas pessoais fracas à escalada da tensão provocada pelas paralisações. Na quinta-feira, quando se radicalizavam movimentos pelo País, Temer participava de entrega de carros. Depois, embarcou para Belo Horizonte para participar de evento do Dia Nacional da Indústria.

A opção pelo emprego do Exército, mais uma vez, foi alvo de críticas no Congresso. “O (uso do) Exército é desnecessário (...) não parece o passo correto neste momento. Os manifestantes estão dialogando”, disse Rodrigo Maia. 

O próprio fato de a negociação ter ocorrido sem qualquer contrapartida inicial dos caminhoneiros, como a liberação de trechos ocupados, também foi alvo de críticas. “Infelizmente, palavras do presidente estão tendo pouca credibilidade com a sociedade, que, de forma legítima, está se manifestando”, continua o deputado.

O descrédito das soluções propostas pelo governo e pela Petrobras prejudicam sobretudo o legado econômico da gestão Temer, até então visto como principal acerto de um governo que amarga taxa de 4,3% de aprovação na última pesquisa CNT/MDA deste mês. 

Com a instabilidade trazida por caminhoneiros, o principal prejudicado é o ex-ministro da Fazenda, Henrique Meirelles (MDB), “cara” do projeto econômico do governo. Pré-candidato ao Planalto, ele já entrará na disputa tendo que responder pela demora do governo em responder às mobilizações. 

Questionado na última sexta-feira sobre o tema, Meirelles foi duro na defesa das respostas do governo no caso. “É inaceitável que, além dos problemas graves e reais dos preços do petróleo e derivados, haja um componente político-ideológico e empresarial nessa aliança de entidades politicamente engajadas com empresas transportadoras”, disse.

Publicado originalmente no portal O Povo Online