29 de maio de 2018

Por que a greve ainda não acabou por Henrique Araújo

Esta é uma pergunta que mobiliza o País: a despeito de todas as concessões, por que a greve continua? Embora o governo tenha cedido em quase todos os pontos da pauta dos caminhoneiros, aprovando a redução do diesel em R$ 0,46 por dois meses, a sensação é de que os manifestantes desejam arrancar mais. 

Michel Temer (MDB) está na lona, e um presidente fragilizado é um alvo tentador. Como uma zebra atravessando a savana africana.

Que o governo terminou, não há dúvida – primeiro com a delação da JBS e agora neste maio com a greve. Sem autoridade, faz cortesia com o chapéu alheio, recorrendo a benesses que vão comprometer as contas de quem assumir o comando dessa nau tresloucada chamada Brasil a partir de 2019, como subsidiar o congelamento do preço do diesel por 60 dias ou elevar impostos a fim de compensar a perda de arrecadação. O cálculo é simples: alguém vai pagar a fatura. E não são os empresários, tampouco os acionistas da Petrobras.

É você, contribuinte, que apoiou a paralisação acreditando que o preço da gasolina também iria cair e agora se depara com um boleto de R$ 10 bilhões para pagar (o custo estimado do pacote de bondades para os caminhoneiros).

E parte da culpa é do próprio governo. Numa sucessão de trapalhadas, Temer negou a gravidade da situação antes de se decidir a negociar com os grevistas. Quando finalmente sentou-se à mesa, era tarde. Convocou lideranças de fachada para uma reunião de emergência em Brasília no final da noite de quinta-feira. Encerrado o encontro, anunciou o fim da greve. Quatro dias depois, as estradas do País continuavam bloqueadas e o abastecimento, suspenso.

O cenário é preocupante. Os manifestantes sentiram cheiro de sangue. Farejando a carne, outras categorias ensaiam uma pilhagem de olho em possíveis benefícios. Restam ainda seis meses de mandato, mas os despojos do governo estão em disputa.

NÃO É APENAS PELOS 46 CENTAVOS

Em sua segunda semana, a greve mostra que a paralisação atingiu esse patamar em que uma bandeira tarifária que estava na raiz do descontentamento de uma categoria se converte rapidamente em movimento político para dar vazão a uma rejeição difusa no País.

E o que acontece quando chega a esse ponto? Abraça generalidades. Como os manifestantes não têm comando político (à esquerda e à direita) e os partidos são rechaçados por essas aglomerações espontâneas, o movimento alimenta-se de demandas abrangentes tão logo são atendidas as reivindicações imediatas. Em 2013 foi o “contra tudo que está aí” – a razão primeira era o aumento da passagem dos transportes em São Paulo, depois revertido. Em 2015 foi a vez do “basta de corrupção”, cujo pontapé foi o “Fora, Dilma”. E em 2018? O aumento dos combustíveis, que vem degenerando agora em pedidos de intervenção militar misturados a gritos de “Fora, Temer”.

Nos três casos, ficou claro que: 1) o nível de irritabilidade da população é alto com a qualidade do serviço que retorna sob a forma de recolhimento de impostos; 2) incapazes de se antecipar, os governos não se mostram preparados para lidar com as manifestações; 3) não há liderança identificável nessas mobilizações, o que aponta para uma configuração diversa de participação política, definida muito mais por causas específicas; 4) a cada nova onda de protestos, acentua-se o abismo entre representantes e representados, o que compromete o papel de Legislativo e Executivo na resolução dos impasses nacionais e, em última análise, fragiliza o processo eleitoral.

A GREVE DO ZAP

Outro aspecto curioso nessa greve é o farto uso dos aplicativos de troca de mensagens e o total embaraço dos governos – e nosso, da imprensa – na tentativa de mapear interlocutores e chegar a uma cadeia de transmissão de comandos e tarefas. É como se estivéssemos todos às cegas.

A paralisação dos caminhoneiros é uma aula prática de economia e política. É, nesse sentido, pedagógica. Depois dela, mesmo a campanha eleitoral precisará ser vista sob outra ótica. A agenda dos motoristas impôs um debate inadiável sobre alguns temas que devem atravessar a campanha. Entre os quais, monopólio da Petrobras, preço do combustível, modelo de desenvolvimento, matriz energética, malha rodoviária, distribuição de alimentos, mecanismos de abastecimento de pontos cruciais para o funcionamento das cidades (portos e aeroportos e sistema de saúde). E, talvez o mais importante, justiça tributária. Os mais ricos precisam pagar mais.

Isso é uma demanda urgente.

Publicado originalmente no portal O Povo Online